terça-feira, 30 de agosto de 2016

Ane San: Um Beat´n Up Conceitual

Ane San conta a história das gangues de rua japonesas formadas somente por mulheres. Essas gangues realmente existiram e eram conhecidas por Sukeban. Um grupo de colegiais japonesas que promoviam brigas, uso de drogas e pequenos delitos em pleno Japão dos anos 70 e 80. Essa sub cultura de garotas pegando em armas brancas e fazendo divisão de territórios com regras internas e hierarquia próprias, foi um reflexo da época em que as mulheres ganhavam mais força com movimentos feministas pós anos 60. Não é comum a gente pensar em meninas socando a cara de outras garotas ou usando pontas de cigarro para marcar traidoras e coisas do tipo, mas essa sub cultura existiu no Japão e acabou influenciando este jogo, inclusive no aspecto visual e temático.



Em Ane San, jogo para o PCE CD e desenvolvido pela NEC Avenue, só exitem garotas versus garotas, a única figura masculina aqui é no final do game e em alguns personagens fixos que servem como background das imagens das fases, in game, só garotas. A história do jogo é difícil dizer, ele é todo em japonês, apenas supondo pelas imagens, eu arriscaria dizer que fala sobre um grupo de meninas que sofriam uma perseguição de outras meninas no colégio e de repente uma menina mais velha apareceu para ajudá-las, dando uma surra nas encrenqueiras e formando assim uma amizade. Tempos depois elas cresceram e acabaram formando uma guangue chamada de EDEN. E a partir daí elas brigam com outras gangues e também aliciam novas garotas, que na verdade são as mini chefes, que também podem ser jogadas no decorrer do game. É claro que eu estou parcialmente errado, mas não totalmente, já que as imagens contam basicamente isso, o problema é saber os detalhes da trama. Aí, só lendo japonês mesmo.




O jogo traz um novo conceito para o briga de rua. Ele tem a parte "bater e seguir", como também possui uma parte de extras, para comprar itens e reforçar suas habilidades. Essa parte em separado é tão importante, que temos uma tela específica para isto no figura do quarto da garota. Podemos comprar vários itens e após terminar cada fase, ganhamos dinheiro, quanto mais bater, mais grana no final. A mesma tela disponibiliza menus que podemos navegar e entrar em "shopping", BGM, a seleção de músicas, mini games, que são importantíssimos para ganhar dinheiro entre outros.


É no shopping que a magia acontece e podemos equipar tanto a lutadora quanto o seu quarto. Comprar comprar papel de parede, bichinhos, botas e óculos. É tudo muito obscuro para quem não lê em japonês... por exemplo, os óculos servem como guia dentro das fases, atuando como uma seta que aparece em momentos específicos para te avisar que motos vem na sua direção, lembra das motos em Batman do Super Nintendo? É mais ou menos por aí.

O que eu quero dizer é que os itens que podemos comprar podem influenciar decisivamente a jogatina, inclusive mudando um pouco o final e dando ou não a habilidade de jogar com outras garotas, que são os mini chefes derrotadas. Inclusive o visual do quarto é customizado, ao comprar um papel de parede rosa, o quarto muda para rosa. É tudo sobre ganhar dinheiro, comprar itens e bater muito nas ruas do Japão. Essa dualidade entre as ruas das fases e a parte do quarto, nosso recanto para fazer upgrades, é fortíssimo e não é um mero detalhe que poder ser ignorado.

O jogo é difícil apenas na primeira fase (já que podemos comprar coisas a partir da segunda na tela do quarto), mesmo assim, existe alguns macetes e dicas que ajudam a iniciar o game. Difícil porque sua barra de energia é pequena, basta 3 golpes para você perder. São 3 personagens iniciais, logo, 3 vidas iniciais. Ao todo são 5 fases, sendo que cada fase é dividida em dois, com um chefe e um mini chefe. Temos os golpes tradicionais. Soco, pulo, voadora e especial, ao apertar os dois botões simultaneamente, o que desconta energia e não é tão útil assim.

Uma coisa muito divertida porém sem sentido até certo ponto, é que podemos em determinadas situações agarrar as outras meninas pelo cabelo, patrocinando assim um verdadeiro e tradicional "combate de mulheres", mas o bizarro é que essa puxada de cabelos pode ser continuada indefinidamente, no estilo "pegou não larga mais", e cada puxão é um pouco da energia da rival que se esvai. Isso é muito estranho... é possível pegar um chefão de fase pelos cabelos e com apenas este movimento contínuo, o vencer sem fazer mais nada de mais. É esse desequilíbrio que decepciona um pouco... por outro lado se você se distrair e receber o primeiro golpe, pode ser fatal, a não ser que sua barra esteja cheia e com um nível alto, que pode ser comprado no shopping.


O jogo é curto, e depois de pegar o jeito e se equipar, de difícil passa a ser ridiculamente fácil. A regra é a de quem bate primeiro, seja nos nimi chefes, chefes ou personagens de rua. Isso ocorre devido a energia dos inimigos que também segue a mesma premissa que a sua. Bateu, desconta bastante. Por isso nos chefes basta ser o primeiro a bater que a vitória é certa. Neste ponto o jogo é bem desequilibrado, eu repito e reforço este ponto. É fácil vencer. Olhando apenas e exclusivamente as fases, quantidade de itens e game design, o jogo é bem pobre. Do começo ao fim é bem linear (excetuando o fato da parte do seu quarto e os mini games).

Ai, Chika e Makoto respectivamente

Temos três personagens principais: Ai, Chika e Makoto. Ai, parece ser a líder do grupo, Chika faz o papel da mais doce e delicada, claro, isso dentro dos padrões delicados de uma marginal, e Makoto, a garota mais alta e mais forte, fazendo o estilo do personagem grande e lento que é clássico nos beat´n up´s. É claro, mais tarde vencendo as fases, é possível selecionar as outras guerreiras, e isso é uma característica muito legal.



Por outro lado, a arte das personagens e as músicas assim como os acessórios que compõe o menu de compras que remete a gangues de rua, é perfeito, muito bem feito e original! As músicas são totalmente diferentes de qualquer coisa que poderíamos imaginar para um beat´n up. Combine o poder do CD no PCE CD mais a liberdade e criatividade japonesas aliada a um recorte específico de sua história recente e... voilà, temos Ane San e suas músicas.

O repertório vai do rock dos anos 50/60 passando por uma faixa onde temos apenas um assobio, estilo velho oeste americano, só esse som solitário e culmina com música eletrônica misturada com erudita e vocais. É uma salada que estranha em um primeiro contato mas depois de um tempo nos pegamos repetindo as músicas.


Apesar de toda essa rebeldia, o grande final culmina com o casamento de uma das personagens, com direito a jogar o bouquet e tudo. A impressão que dá é que os desenvolvedores fizeram uma alegoria da adolescência, usando como pano de fundo as perigosas gangues oitentistas chamadas de Sukeban para contar uma história de vidas dessas garotas jovens japonesas e seus problemas típicos da idade.

No final das contas, são apenas garotas tentando achar o "príncipe encantado". De certa forma esse final pode ser entendido como algo totalmente oposto a premissa inicial do game, isto é, mulheres sem soutien, usando blusas e jaquetas, com facas e socos ingleses, formando grupos renegados que estão "cagando" para a sociedade e os ritos sociais tradicionais.

Por isso o game parece traduzir a turbulência da adolescência para a fase adulta. É apenas um palpite, basta olhar as cenas iniciais e comparar com as cenas finais que temos esse aspecto totalmente divergente. Embora a gangue tenha permanecido e apenas uma que se casa.


Ane San não é um beat´n up comum. As compras de itens e os minigames expandem o jogo que de fato é curto. Ele tem uma premissa diferente e causa um impacto diferente no jogador. A soma de toda a arte, a customização, as músicas e todo o contexto do game, fazem de Ane San algo muito mais rico que o gênero exige, entretanto, ele decepciona por não oferecer um sistema realmente competitivo de combate e pouquíssima variedade de inimigos in game. mesmo assim, jogá-lo é um prazer, porém um prazer imediato e simples. Ao final do game, a gente fica com aquela sensação de que poderia ter tido algo a mais. O jogo é muito bom, desde que deixemos de lado toda a expectativa de um grande beat´n up e abrimos os braços para um desafio que usa o gênero para oferecer coisas a mais e de uma forma bem original.









Bônus Importante: Os Minigames


Tenho certeza que quem ler este review e decidir jogar Ane San vai encontrar dificuldade nos minigames, na forma de jogá-los. Pode parecer intuitivo mas não é. A mecânica deles é apertar o d-pad loucamente em círculo para ganhar pontos. Como eu uso o controle do Playstation 3 na emulação, eu encaro o d-pad nesses momentos como se fosse o que ele realmente é: Quatro botões em forma de cruz, isto é. ao invés de girar o polegar rapidamente, eu uso os quatro dedos, um para cada botão individualmente para poder obter mais resultados.

12 comentários:

  1. Eu vou dar uma segunda chance pra esse jogo, pois o que me desmotivou foi a parada de tomar 3 catiripapos e perder uma das garotas logo de cara. Achava que o sistema de compras era somente pra embonecar o quarto da garota. A ost é muito boa também.

    O Japão tá mesmo na lona. Tinha filme setentista de delinquente tipo um que eu postei da classe de aula com cara de hell's angels, filme de yakuza, samurais, garotas porradeiras. Pra onde foi tudo isso, Japão? Só tem androginia e filmes exagerados com efeito de super sentai.

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    1. Mas para responder isso temos que olhar e tentar responder. Quem são os jovens japoneses de hoje? Espero que seja uma fase de gerações e esse efeito de androginia passe, é algo que tomou conta de quase tudo na produção de animes e games, isso é verdade. Principalmente os RPG´s, gênero que não curto tanto mas é um fato. Aliado a isso, temos a vasectomia cultural onde tudo é relativo, não existe mais bom ou ruim e devemos usar uma lista de palavras proibidas para ter uma conversação "sadia" em ambientes públicos. Se tem algo pior que a censura, é a auto censura. O Japão reflete um pouco essa cegueira monitorada e geleia mental que vivemos hoje em dia.

      No jogo eu uso a sequência de pegar primeiro a AI, por ter um soco bem rápido e vou direto para a fase que fica na parte superior esquerda do mapa, a que tem a gordinha como chefe e o símbolo da gangue é um dragão. Eu escolho esta fase por não possuir meninas de motos, e isso é uma grande vantagem. Eu fico geralmente na parte superior da tela ou centro e levemente alinha à esquerda para receber as inimigas, outra coisa, use apenas socos, não perca tempo com voadoras nesta fase ou especiais, apenas soco. Uma coisa importante, ao ficar frente a frente com os oponentes, começa a socar já com um "braço" de distância, parece que não alcança mas alcança sim, isso evita o contato, pois como eu disse no post, basta 3 soquinhos para perder a lutadora. Só isso.
      Fique em cima
      Soque com antecedência
      E, obviamente, nunca de as costas para nenhum personagem.

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  2. Qual emulador de PCE você tá usando? Magic Engine nos Windows posteriores ao XP não leem cd e o Turbo Engine não roda boa parte das isos ou cai numa tela estranha com algum dizer em japonês.

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    1. Doc. Eu uso o Retroarch ver 1.3.6

      Basta baixá-lo aqui neste link
      https://buildbot.libretro.com/stable/1.3.6/

      Claro escolha windows e escolha X86 para máquinas 32bits ou X86_X64 para computador 64bits.

      Após instalar você deve ir em na primeira guia em
      "on line updater"
      depois escolha
      "core updater"
      e confirme o core chamado
      "PC Engine/PC Engine CD (Mednafem PC Fast)" este é o emulador no caso.

      Aproveite para dar uma atualizada nas outras opções deste menu que são:

      "Update Core info Files"
      "Update assets"
      "Update database"
      "Update autoconfig"

      Só para garantir, é bem fácil basta apertar "Z" para sair e "X" para confirmar ações. É tudo feito automaticamente.

      Baixe a BIOS chamada

      "syscard3.PCE"

      e coloque ela na pasta system do retroarch, só joga lá, sem estar zipada nem nada, deixa ela livre dentro da pasta.

      O arquivo do Retroarch é o que tem mais de 70MB, o outro pequenininho você pode ignorar.

      Baixando outros "CORES" você pode emular muitos outros consoles!

      O caminho de instalação é em qualquer lugar que você deszipar os arquivos. Fácil, Fácil.
      Basta executar o

      "retroarch.exe"

      que ele já roda!

      Resumindo:
      Baixe o Retroarch
      Atualize o CORE do PC Engine
      Baixe a BIOS
      Atualize os outros "updates" só por segurança

      E rode o jogo entrando na .CUE dele, não precisa montar imagem fazer nada, basta entrar no arquivo.

      Depois mexendo melhor você define a pasta de roms etc...

      Para rodar o jogo o caminho mais simples é na primeira guia você apertar:

      Load Content
      >>>>>>>>>>>>>>>>>Select File and Detect Core
      >>>>>>>>>>>>>>>>>Navegue até o arquivo do jogo
      >>>>>>>>>>>>>>>>>Confirme o CORE entrando em PCE/PCE CD

      É só jogar!
      Qualquer coisa avisa aí.

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  3. Fiz as atualizações, baixei a bios citada mas na hora de rodar o jogo, o programa dá crash e fecha. Testei até com Dracula X, geralmente fácil de rodar e nada.

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    1. Tenta então mexer no driver de vídeo Doc

      Vai no segundo menu, o das engrenagens, entra em

      "driver"

      Daí vai com as setinhas para baixo até

      "Vídeo Driver"

      e com as setinhas para a esquerda/direita mude para um formato diferente, vai testando.

      GL D3D SDL2
      null e Vulkan com certeza não é

      Depois de mudar é só sair dando "Z" ele salva sozinho as mudanças, talvez o problema seja nestas configurações de vídeo

      Uma outra coisa mais "complicada" para fazer caso isso não dê certo, é atualizar a última versão do DirectX do Windows. Respeitando a compatibilidade do seu sistema operacional é claro.

      Geralmente crashes acontecem por estes dois motivos!

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    2. Foi! Parabéns por ter compartilhado esse multi-emulador! O jogo rodou, mas o menu é bem chatinho de aprender por mais intuitivo e prático que ele tente ser, vou ter que decorar bem os caminhos. O controle é que eu tô quebrando a cabeça pra configurar os botões certos. Você acessa qual comando pra fazer isso?

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    3. Legal, que bom que rodou Doc!
      Eu uso o Retroarqch com um launcher, isto é, junto com outro programinha leve que tem a função de mostrar os jogos de uma forma mais agradável na tela e mais fácil de acessar os games. O nome é Emulationstation. Mas este sim é um pouco mais chatinho de configurar, não é difícil mas é mais trabalhoso.

      O retroarch funciona assim.
      Ele não é um papel em branco no que tange controles. Ele já vem de "fábrica" todo pré configurado em relação ao console que você está emulando. Que chamamos de "CORE".

      No teclado por padrão temos as teclas de botões "Z,X,A,S,Q,W" que são os botões. Start é o "enter" mesmo e o select é o "shift" do lado direito.

      Mas se você conectar um controle genérico, no meu caso o do PS3, ele automaticamente configura todos os botões. Não precisa mexer.

      Isso acontece porque o sistema tem uma "memória" do layout de todos os controles dos consoles, e para cada caso ele auto configura tudo no controle.
      É por isso que é importante fazer os Updates de assests, autoconfig, etc...

      Mesmo assim se você quiser alterar os botões. Basta ir em:

      Engrenagens
      >>>>>>>>>>>>Imput
      >>>>>>>>>>>>Descer até Imput User 1 Binds
      >>>>>>>>>>>>Descer até User 1 "nome do botão" e entrar com "X" e adicionar o novo comando.

      Para voltar tudo ao original de fábrica e zerar as configurações, não precisa reinstalar o retroarch, basta deletar o arquivo "retroarch.cfg" que fica na pasta do executável, que é a pasta principal dos arquivos no caso. E substituí-lo por outro arquivo que fica bem ao lado chamado "retroarch.default.cfg". Apenas apague do nome a palavra ".default" e utilize normalmente com o nome do anterior mesmo. É que este arquivo é como se fosse um arquivo reserva, um back up do primeiro.
      É sempre bom ter uma cópia deste "retroarch.default.cfg" para voltar ao estado original se for preciso.

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    4. Consegui! O lance é que o emulador usa mapa similar aos botões do SNES, mas agora resolvi. Valeu pelos tutoriais deixados aqui! Um dos poucos blogs mantendo atividade e mostrando jogos obscuros. Achei mais umas pérolas do PCECD e agora vou poder abordá-las na Cucamonga além de outras plataformas com emuladores difíceis de fazê-los funcionar separadamente.

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    5. Eu gosto do retroarch exatamente por não precisar ficar montando as imagens... mas no caso do Saturn, não tem jeito. Eu fico com o bom e velho SSF mesmo. Kkkkkkkk
      Rapaz, PCE CD eu testei pouca coisa, mas sei que sendo PCE com certeza deve ter pérolas perdidas, aja vista o console de cartão!
      Abração Doc!

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