domingo, 30 de outubro de 2016

The Last Blade: Neo Geo CD

The Last Blade ou seu nome original, Bakumatsu Rōman: Gekka no Kenshi, é um jogo de luta da SNK e foi lançado em 1997. A premissa básica dos combates é o uso das armas brancas, não somente espadas, mas porretes, lâminas médias e até um leque, arma essa que ficou famosa nas mãos de Mai Shiranui do jogo The King Of Fighters.

Mas a grosso modo, podemos dizer que é sim um jogo de espadas, embora elas não sejam tão reverenciadas como em Samurai Shodown por exemplo. Embora o título ocidental faça menção a "última lâmina", o título original é bem específico e faz menção ao período Bakumatsu do Japão feudal do século XIX.



O jogo inteirinho é artisticamente baseado neste período do Japão. Um período muito conturbado porque foi o final da era Edo e início do período Meiji. Essa fatia da história do Japão é particularmente dramática do ponto de vista social e político.




Foi um período onde um Japão praticamente isolado do mundo, um japão de samurais, feudos e produção artesanal de quase tudo, passa a ter empresas, fábricas e seus portos são abertos ao mundo. Foi uma preparação, um embrião do capitalismo que iria se tornar absoluto nos anos seguintes nas terras japonesas.

uma fase de transição no Japão, assim como as estações ou as fases da lua


O jogo em suas fases reflete isso. Temos bandeiras estrangeiras, pessoas nitidamente ocidentais misturadas com as japonesas e um comércio pujante. Também é possível identificar na fala de alguns personagens coisas como nacionalismo e preconceito com estrangeiros. Coisas que eram típicas do momento e estavam com força total, quase como uma ferida aberta.

É um jogo de luta, quer dizer, não precisava de tanto detalhe e essa preocupação em contextualizar os cenários e personagens, mas estamos falando da SNK, e portanto, qualidade não é uma opção para esse pessoal.

Temos doze personagens selecionáveis. Existe dois tipos de super especiais, sendo que um deles só pode ser acionado se sua energia estiver no vermelho e seu medidor de força no máximo. O medidor de força é aquela barra paralela que indica o momento certo de usar golpes mais potentes.


o monge chinês Lee venceu, mas Washizuka fez questão de lembrar que ele não é bem vindo por ali


Um segundo tipo de especial exige apenas que a barra esteja completa, nada mais. Além disso temos uma vasta gama de golpes e bloqueios que intensificam a luta e equilibram os poderes dos personagens. Eu pessoalmente percebi uma absurda dificuldade de enfrentar os personagens que possuem espada com outro que não possui.

Mas isso vai da técnica de cada um obviamente. Como eu não sou lá um grande jogador de jogos de luta, eu me adaptei melhor com o Lee, porque ele possui golpes que lembram o Shoryuken e outro que remete ao Kim do KOF, quando ele salta e desce com várias pisadas na cabeça do adversário.


as fases são uma obra de arte, flutuando entre áreas claras e sombrias, entre o dia e a noite


Por acaso este personagem é o que usa um leque para combate, mas ele não atira o leque como faz a Mai. A história do lado da ficção não foge muito ao que temos nos jogos de luta, o detalhe interessante é a parte da história real que serviu como base para as roupas e o estilo geral do game.

No jogo temos Kagami que abre as portas do inferno para poder destruir e dominar o mundo dos homens. Enquanto isso paralelamente temos outra história central que envolve Kaede, e seus irmãos adotivos Moriya e Yuki.

Kaede vai treinar com Yuki, mas ao voltar do treino encontra seu mestre morto ao lado de Moriya. Tudo indica que ele matou o mestre, Moriya desaparece e anos depois, Kaede descobre que o verdadeiro assassino de seu mestre era o Kagami, o mesmo que tem sede de poder.


o chefe final...


Durante as batalhas chegamos a um momento em que Kagami ressuscita um tal de Musashi Akatsuki. Ora, temos aqui o bom e velho clichê de chamar ao mundo dos games o lendário lutador e mestre das espadas Miyamoto Mushashi, um guerreiro real e mito japonês que inclusive eu já falei dele aqui neste post sobre outro jogo do Neo Geo, mas dentro dos arcades.

O guerreiro que no jogo também é citado como o mestre das espadas serve na função de um sub chefe para depois dele enfrentarmos o poderoso Kagami. Uma coisa é certa, a SNK reaproveitava muitas ideias e entregava sempre um ótimo produto... como eles conseguiam fazer isso?


mais uma vez o guerreiro Musashi é lembrado em um videogame, e de fato é o mais difícil do jogo. Um sub chefe com status de chefe final


Kagami ressuscita Musashi do mundo dos mortos... ela reaparece nu das entranhas da terra para lutar mais uma vez


Acredito que nem todos os personagens estão costurados na trama. Eu zerei apenas com o Lee e o Kaede, e dentro do contexto do Lee, o final faz que ele tenha uma grande dúvida existencial a depois de derrotar Kagami, ele saiu em uma grande viagem pela descoberta da "verdade", abandonando seu templo e seu mestre, prometendo que voltará quando obter a verdade.

A ideia dele é a seguinte no final do jogo:

"Se o vilão usa a força para provar seu argumento e eu também uso a minha para provar o meu... quem é o vilão na verdade? Quem está com a razão?"

o nosso amigo chinês está passando por uma fase de dúvidas sobre o bem e o mal

Com certeza vou jogar e zerar com mais personagens, inclusive o jogo possui um sistema de saves que salva as telas de transição e salva os finais de cada personagem também, algo muito legal! Como estamos falando do CD do Neo Geo CD, essas informações vão direto para seu Memory Card. E falando do Menu, temos a opção de colocar em português o texto do jogo, também temos o japonês, espanhol e inglês. Não sei se isso muda com a versão japonesa, a versão que joguei é a ocidental mesmo.

nem todas as armas são espadas, Yuki carrega uma lâmina ou lança


A parte artística do jogo é sensacional! A barra de energia é trabalhada como se fosse a lâmina de uma espada, quando ela termina e começa a segunda barra isso desaparece. As fases são lindas, além da contextualização histórica que eu já citei antes. E para fechar com chave de ouro temos as roupas dos personagens, cheias, riquíssimas de detalhes, e suas armas também.

É sem dúvida um game que a gente pausa várias vezes para ficar admirando as cenas e seus personagens! Certo, tudo lindo... ma e o gameplay? Existe uma coisa que determina o ritmo e dá personalidade a qualquer jogo de luta, essa coisa se chama física. Uma coisa é movimentar o Blanka de um lado ao outro da tela... outra é fazer o mesmo com a Sonya de Mortal Kombat, isto é, cada um possui uma personalidade, uma forma e velocidade de andar e pular.

Aqui em The Last Blade, todos os personagens são bons de jogar, cada qual respeitando sua estrutura. O grandão é mais lento e a garotinha bem mais rápida, isso é quase padrão. Mas temos surpresas como por exemplo a movimentação de Shikyoh, que se arrasta ao andar e faz o estilo cara "underground", com um forte tom de misticismo.

A parte sonora surpreende pela sua ênfase nos ruídos do ambiente e dos golpes. Não são apenas "apitos" e sons básicos de coisas quebrando como temos em Street Fighter Alpha, por exemplo, não, a coisa aqui foi muito mais bem trabalhada e durante a luta vários elementos sonoros se destacam belissimamente.

até o loading é artístico...

A coisa chega até a atrapalhar pela distração se o jogador for do tipo que presta atenção no som dos jogos. Foi feito um trabalho artístico também nos efeitos sonoros, quanto a música em si, eu não achei algo muito estonteante, por incrível que pareça, tanto a música como os elementos visuais estão voltados a interagir com os sons dos golpes e elementos soltos de cada fase. Seja o barulho de crianças brincando ou o som frio e sombrio de um lobo noturno... só jogando para saber e sentir o que eu estou falando, jogue!

Em resumo o jogo tem excelente gameplay, variação de golpes inteligente, tem um fator de rejogabilidade altíssimo, porque temos a vontade de ver o final de cada um e o fato dos finais ficarem gravados, isso instiga mais ainda a gente jogar para poder "colecionar" todos eles.


Shikyoh, de cabelo branco, se arrasta para andar e usa lâminas duplas como ataque


Ainda bem que este jogo saiu para consoles, algo desta grandeza não poderia ficar só em arcades, um lugar que a gente não tem como dar a devida atenção para os detalhes. Sem falar que é visualmente lindo, em todas as suas camadas; fases e personagens. Eu recomendo muito The Last Blade, fiquei surpreendido com ele, eu conhecia apenas de ver em revista e jurava que ele estava na "pegada" de um Art of Fighting por exemplo, não digo que ele é melhor ou pior, mas com certeza é deliciosamente diferente.

13 comentários:

  1. O 2 dsse ai ta na lista de jogos que eu adoro mas sou horrivel jogando. Mas o jogo é lindão mesmo. O controle dos personagens é bem diferente do que eu estava acostumado no KoF e o sistema de contra ataque é massa também.

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    1. Eu já fiquei de olho no 2 depois de jogar esse aqui. Eu gostei muito desse jogo e como não tinha jogado ele nos tempos de Neo Geo, porque eu nunca tive um, foi uma grata surpresa, vou jogar o 2 com certeza.
      Valeu Filopoisquilo, abração!

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  2. Esse Last Blade é tão memorável quanto Garou: Mark of the Wolves e o Street 3. Mas dessa santa trindade, foi o que joguei menos. O estilão e período histórico lembra Samurai X, eu sei que o autor declarava tirar muitas ideias dos personagens de jogos de luta. É meio decepcionante ver um jogo bem acabado como esse e compará-lo ao último KOF que saiu.

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    1. Depois eu li algo a mais sobre o jogo e em alguns sites o pessoal fala que houve influência de Samurai X no desenho dos lutadores, bom, um deles possui a marca no rosto que lembra muito o Kenshin. Eu adoro Samurai X e sou um novo fã de Last Blade. Portanto essa fala do autor de que ele tirava muitas ideias dos jogos de luta procede e muito Doc!
      Rapaz, eu estou por fora desse KOF mais recente, mas uma coisa é certa, em geral, quando o assunto é jogos de luta, eu prefiro os antigos.
      Falou Doc!!!

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    2. Tem o jogo do Samurai X pro PSP.

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    3. É verdade, mas é todo em japonês e eu acabei desencanando, pode ser que eu volte nele.

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  3. Joguei o primeiro e segundo poucas vezes perdidas nos arcades aqui de Recife e achava tenso só ter num ponto com ficha cara (se não me engano só tinha em shopping). As graças que você deu por esse jogo ter saído para console são justas, pois era um jogo que parava pra ver sem por ficha e não entendi nada da história, fiquei muito confuso com a mudança do cabelo do Kaede.

    Depois de ler o post vou atrás desse game pra jogar com meu enteado, fico tentando fazer ele jogar alguns games antigos de luta hehe. Inclusive tenho até que arrumar uns controles decentes pro pc.

    Acompanho seu blog vez por outra, mas só comentei pela primeira vez agora e aproveito pra dizer que curto a maneira pessoal que você fala dos jogos.
    Abraço.

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    1. Nos arcades eu sentia uma adrenalina quase que constante quando jogava em jogos de luta. Sabe como é, muita gente olhando e você ali gastando o dinheiro do lanche kkkkkk
      No PC eu uso o controle do PS3 (Windows 8) mas se tentar um genérico ou o próprio do XBOX roda sem precisar fazer mais nada. Jogar um multiplayer local com um amigo ou parente é sempre muito bom!
      Obrigado Sílvio, volte sempre que puder a comentar por aqui, muito obrigado, abração!!!

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    2. Eu usava o do ps3, mas me livrei do videogame. Quando tiver uma verba sobrando pretendo investir em um sim, quando terminar a pesquisa (eu sempre pesquiso quando vou comprar essas coisas), e receber o produto posso passar a dica. Abraço.

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  4. Impressionante como a SNK fez um bazilhão de jogos de luta em sua época dourada, não? rs
    O melhor de tudo é que eram todos bons, muito provavelmente usavam uma engine padrão posteriormente adaptada para cada caso, imagino. Barateia o custo inicial do projeto.
    Este do review eu não conhecia, parece bem interessante.
    Lance de salvar progresso dos personagens em um jogo de Neo Geo CD é algo bem bacana mesmo!
    Gostei de saber que o som é trabalhado, provavelmente eu vou perder as lutas todas por ficar prestando atenção quando for jogar. E isso não tem nada a ver com o fato de eu ser uma droga em jogos de luta! kkkkkkkkkkk
    Muito bom o review!

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    1. SNK é a mãe dos jogos de luta. Seu esplendor nos arcades é incontestável! O console basicamente reflete isso. Mas eu sempre achei que foi um erro a SNK fazer o Neo Geo como uma extensão dos arcades, quer dizer, usar esta filosofia a risca sem ceder a nada. Um console, estou chutando mas... um console mais "básico" que brigasse com o super Nintendo e aliado a expertise da SNK em jogos de luta e plataforma e navinha, poderia abrir espaço para um console mais barato e também poderia ser a casa de outras desenvolvedoras que estavam só com a SEGA e Nintendo!
      O som é maravilhoso Cadu!
      Abração!

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  5. Last Blade é um dos melhores trabalhos de pixel art da SNK! Tenho salvo alguns gifs de cenários desse game pra curtir como fundo do Kodi! Jogou no console mesmo? Se não, nem sabia que existia emulador do neo cd.

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    1. O jogo é lindo mesmo, eu sou suspeito kkkkk mas é de encher os olhos! Eu joguei no excelente emulador chamado Raine32, é preciso da bios mas não precisa montar imagem, é só rodar como um jogo de master system por exemplo.
      Abração Flávio!

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