quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Boxing: Atari 2600

A imaginação é como um músculo. A gente precisa usá-la constantemente para manter a forma. Eu já ouvi gente dizendo que o jogo Boxing se parece mais com dois patos brigando na tela ou algo assim. Para ele, pareciam mais com dois patos... E isso acabou se repetindo a todos os jogos de Atari "analisados" na fala dele.

Esse é um bom exemplo de cabeça fraca e imaginação frágil de muitos jogadores, independente da idade. Hoje, onde todo jogo é mais perfeito que a realidade e cérebros "treinados" percebem a queda de 2 frames em uma jogatina cheia de tiros, explosões e tanques de guerra, fica difícil entender como está a saúde imaginativa desse povo. Dentro deste contexto o Atari já foi posto à prova nos dias atuais naqueles vídeos feitos para extrair a reação das pessoas, para ver a reação de jovens e crianças diante de um aparelho mais velho que todos eles.



E para minha surpresa e alegria, os testes foram bem conclusivos. Em média, uma criança que nunca viu um Atari, depois de 15 ou 20 minutos já está tranquilamente familiarizada com os controles e o mais importante, com o que estava acontecendo na tela. Essas crianças provavelmente com sua imaginação intacta, saberiam identificar, com mais ou menos dificuldade, que na tela do jogo Boxing do Atari, nós temos dois lutadores dentro de um ringue. Eu já vi alguns vídeos no Youtube de pais colocando seus filhos pela primeira vez diante de um console antigo e se saindo muito bem.

Não estou dizendo que uma criança vai escolher um jogo de Atari ou Master System no lugar do seu Playstation 4, nada disso, eu mesmo quando jovem queria saber dos consoles mais atuais, esse sentimento de resgate e reconhecimento do valor dos jogos antigos começou a fomentar bem mais tarde, em parte com a chegada dos emuladores. O que eu quero dizer é que mesmo crianças de hoje são capazes de abstrair e entender o conceito e o desenho dos jogos antigos da mesma forma que as crianças faziam em 1983.




Eu faço mea culpa, com certeza a barreira das gerações é algo a se notar quando testamos um console de 1977 para crianças que nasceram... sei lá, em 2005. Outro fator que eu entendo é que o Atari possui muitos jogos ruins e completamente não identificáveis, gerando algumas vezes um amontoado de pixels que se movimentam na tela.

Mas é aí que entra um fator decisivo na hora de julgar ou não julgar alguém. O Atari também possui jogos excelentes a totalmente intuitivos na hora de jogar e entender o que se passa na tela. Nós usamos símbolos parecidos com o que o console usa o tempo todo. Seja na sinalização de trânsito, nos botões do micro ondas ou nos ícones do PC. É por isto que não tem desculpa. Se um bom jogo de Atari é completamente estranho a você, então o problema é sua imaginação, isto é, a sua capacidade de abstrair figuras, em outras palavras. Sua inteligência.

É por isso que a frase clássica "- Eu vi o filme mas o livro é muito melhor..." é uma frase sempre atual. Livros exigem da nossa mente uma boa dose de abstração, o Atari também. Não estou livrando a barra do querido console, como eu disse antes, tem jogo que nem o criador sabe ao certo o que significa os desenhos na tela, mas em geral, quem fala que o console é feito só de "quadradinhos" comete um erro e tanto. Um erro grosseiro.




Dentro da biblioteca do Atari, Boxing é o tipo de jogo básico mas bem feito. Seu objetivo é bem limitado, mais ou menos no estilo do jogo Freeway, também conhecido como da "galinha que atravessa a rua". São games que não possuem um foco em ganhar pontos, mesmo que pontuem. São jogos livres, de combate imediato, de ação imediata, geralmente para dois.

Boxing é assim. É possível jogar com outro colega ou contra a máquina, mas nas duas formas temos um limite de tempo de 2:00 minutos e nada mais. Tudo acontece neste intervalo que define um round. Não existe uma continuidade, se a gente quiser jogar mais um round, devemos resetar a máquina e recomeçar, simples assim.

E digo simples porque muitos jogos do Atari, para não dizer a maioria, possuem coisas a mais, possuem uma continuidade, nem que seja uma repetição em dificuldade mais alta, mas mesmo assim, os bons jogos, possuem isso e com variações. Boxing é um excelente jogo mas optou pelo fator simplicidade. Ligou, jogou, passou dois minutos e fim.

É o tipo do game que se aproxima da parte mecânica do desafio, e não da eletrônica. É como se os elementos na tela fossem apenas uma continuidade de seus braços, quer dizer, os personagens atuam mais como ferramentas limitadas pelo tempo de dois minutos do que personagens que representam algo dentro do jogo. Isso é estranho, foi uma limitação imposta e que deu certo por se tratar de um esporte. É um palpite.

Temos um ringue e dois lutadores. O controle 1 é o branco, o negro é o controle 2. O Atari possui apenas um botão, então como socamos com as duas mãos?

Bom, isso depende da posição que você está em relação ao oponente. Como a câmera do jogo é aérea, visão de cima, quando estamos com o soco esquerdo mais próximo do rosto do adversário é ele que fica ativo e é ele que se move ao apertarmos o botão, o mesmo acontece com o outro punho, o direito.



O mais legal é que essa transição é absolutamente rápida e fluída. Ao começar a partida você esquece isso e já sai socando usando mais o posicionamento do direcional (sim, não tem direcional, mas é estranho falar stick ou algo do tipo) do que o apertar do botão. E tem mais! Ao desferir um soco que acertou, seu oponente se move involuntariamente para cima ou para baixo devido ao impacto do soco, ficando na posição ideal para mais um soco, sabe o que isso significa? Significa que se seu oponente não modificar a posição dele em relação ao seu punho logo depois de receber um golpe, ele será vítima de um belo combo de vários socos como se fosse um mecanismo que disparou e não consegue parar!

E isso vale contra você também. Ao desferir um soco nossa defesa fica aberta e é aí que o oponente pode aproveitar para se posicionar na linha reta que atinge o nariz e começar a socá-lo também. Essa dualidade colocando as mesmas regras para os dois lutadores, sem erros de colisão em perfeita harmonia de movimentos, faz de Boxing uma verdadeira máquina eletrônica de diversão e desafio simples e direto.

É algo puro, bruto, mas com uma perfeição de movimentos lapidados que oferece uma forma onde os dois lutadores tenham as mesmas chances de vencer! Além disso temos mais alguns elementos para apimentar mais o desafio.




Podemos manter o botão pressionado, isso faz com que um dos braços fique completamente estendido dificultando a "entrada" dos golpes do adversário. Outra coisa. Um soco de longa distância vale 1 ponto, e um soco de perto, vale 2. Quem fizer 100 pontos primeiro ganha por K.O. E se o tempo acabar, ganha quem tiver mais pontos. Isso significa que uma partida equilibrada pode ser "enrolada" se o fator tempo estiver a nosso favor. Mas é sempre bom ficar esperto, os combos acontecem frequentemente e uma sequência de 5 ou 6 socos, já é o suficiente para gerar um estrago de 10 ou 12 pontos!

Update 30/12/2016
Hoje, antes de deletar as screenshots que não entraram no texto eu percebi que esqueci de falar do Double KO. O que acontece se o tempo acabar e os placares estiverem iguais?
Nada!
Enfim, como eu disse, esse jogo é ótimo mas optou pela simplicidade absoluta, praticamente uma máquina feita com códigos de computador.




Fim do update.

Existe uma beleza e até mesmo uma densidade nos jogos de Atari que muitas vezes só é possível entender jogando, aliás a única forma de realmente entender é jogando. Nunca subestime um velho jogo de Atari, ele pode ser o jogo da sua vida. 

13 comentários:

  1. " um console de 1977 para crianças que nasceram... sei lá, em 2005" me sentindo muito velho aqui!

    Abc!

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    1. Eu sei exatamente como você se sente Scant. As vezes eu discuto sobre games com gente que nem tinha nascido quando eu jogava PS1. Isso é estranho kkkkkkkkkk
      Abração Scant!

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  2. Eu já não sou muito fã de Atari. Foram poucos os jogos que joguei deste console e achei divertidos (Pitfall, Boxing, Enduro e River Raid). Mesmo os que eu gosto, são jogos que não me prendem por muito tempo, ficam basicamente em uma mesmice. Entendo que para a época é algo revolucionário, mas se comparar com Nintendinho e Master System já deixa bem injusto.

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    1. Isso é normal Duran. A proposta de jogo no Atari e contemporâneos é bem diferente dos consoles de terceira geração. E outra, o tempo em cada console varia muito. Por exemplo, vamos pegar um tempo de 10 minutos.
      Em 10 minutos contínuos dá pra ir bem longe em jogos Atari, as sessões de jogatina são menores mesmo. No Nintendo, esse tempo só dá para concluir uma ou duas fases geralmente, claro, estou generalizando, e em um PS4, 10 minutos é o tempo para ver a tela principal e com sorte fazer algum update para só depois tentar jogar.
      Valeu Duran!

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  3. Tu tá me falando que um jogo antes de 2010 com resolução baixa, sem texturas, blur, enredo cinematográfico, objetivos extras, sem mapa aberto, side quests, ou falta dlc de personagens novos vai prestar? Esse jogo pelo menos tem editor pra jogar online?

    Brincadeiras a parte, eu vejo que existe um sentimento de ojeriza por tudo que é antigo, seja filme, música etc.. Talvez pelo anacronismo e arrogância de alguns que não tem tino de atrair a nova galera para redescobrirem coisas anteriores e até renovarem a redescoberta com sua própria visão.

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    1. Kkkkkkkkkk sem chance Doc, não achei uma entrada RJ45 ou placa wi fi no Atari 2600 kkkkkkkk
      Eu diria que é mais que um medo ao velho, é um condicionamento mesmo. Desde pequenos estamos em contato com a ideia do novo ser melhor e isso nos persegue por toda a vida. E isso está introjetado na nossa linguagem, na nossa cultura e nos nossos costumes diários. Por exemplo.
      Quando eu falo na palavra "Evolução", o que é que as pessoas mentalizam?
      Evoluir = ficar melhor, se algo evoluiu então superou o anterior.
      Errado! Evoluir significa se modificar, se adaptar ao meio, não tem nada a ver com ficar melhor necessariamente. Uma espécie evoluída se colocada em outro habitat pode perecer rapidamente. Mas a mídia e principalmente o setor de tecnologia absorveu essa palavra dando um outro significado a ela.
      Evoluir é bom? Sim, mas depende do contexto.
      Outro exemplo são os programas de computador. Nem sempre uma versão mais atual é melhor. Um caso clássico é do iTunes que muita gente usa versões anteriores a atual porque gostava mais da interface ou não era tão pesado. Ou então o clássico exemplo do Windows Vista, evolução do Windows 7? Pois é.
      O que dizer do dia a dia. Já reparou que embalagens de pasta de dente, sabão ou doces sempre possuem um "novo" na sua embalagem a cada 6 meses?
      "Nova fórmula" "Novo sabor" "nova embalagem" "nova puta que pariu" kkkkkkkkk vivemos o culto do novo e do raso em muitos aspectos de nossas vidas.
      Mas Doc, quer saber o que é o pior disso tudo? O pior é que muitas vezes o novo nada mais é do que uma ideia bem antiga travestida de evolução. Isso é o pior.
      Sabe qual é a diferença de uma Duracell que eu comprava quando era adolescente em 199X e uma de hoje? Nenhuma,zero. Ou as novas fórmulas de pasta de dente... mudou nada... ah! mas as embalagens essas mudam loucamente tentando vender uma ideia falsa de evolução.
      Eu não tenho medo do novo. Adoro tecnologia e experimentações nas mais diversas áreas. Eu tenho medo é de coisa ruim e que não funciona. Se algo novo funciona, tá valendo, mas se for apenas um decalque mal feito daquilo que já existe e funciona bem, eu passo.
      É isso aí Doc. Novo ou velho para mim não importa. Desde que seja bom, de qualidade e/ou funcione. É por isso que no que tange videogame, eu ignoro se um jogo é velho ou novo, eu quero saber se ele é um jogo bom.
      Esse sentimento de ojeriza que você citou está impregnado em nós, estamos dentro dessa cultura, o remédio é a reflexão.
      Abração Doc!!!

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    2. Esse seu comentário já rendeu um sub texto muito bom. A cada nova embalagem de pasta de dente mudam a ilha paradisíaca. Triple Refresh Protection em Fiji. Ultra Light Intensity no caribe.

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  4. Muito boa essa postagem, nunca tinha pensado em explicar conceitos de semiótica com jogos de Atari, muito inteligente hehe.

    De fato, esse jogo é muito divertido, lembro de trocar muito soco com meus irmãos, obrigado por provocar essa nostalgia.

    Abraço!

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    1. Valeu Sílvio. Uma boa forma de entender como as pessoas de qualquer idade ou cultura pode gostar muito de jogar Atari, é perceber como joguinhos simples de celular fazem sucesso, são jogáveis e as pessoas gostam. Muitos destes jogos são cópias diretas dos jogos Atari e/ou de suas mecânicas.
      Grande abraço Sílvio!

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  5. Mandou bem!

    Alguns jogos para o Atari, somente lendo o manual pra entender o que se passa, na falta desde, dá-lhe imaginação.

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    1. Bem lembrado LGD. Inclusive o ET, mesmo se não tivesse os erros de colisão que o transformou no maior bode expiatório do mundo gamer, mesmo assim, mesmo que ele fosse um jogo sem problemas, teria que ter um manual para começar a jogar direito.
      Valeu LGD!

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  6. O que? Patos? Eu sempre imaginei dois caranguejos brigando! Acho que a maioria que conheço diz isso também. Pato pra mim é novidade, na verdade pra mim patos eram os dragões do Adventure! Kkkkk
    Bom, isso a parte, eu concordo muito com o lance da imaginação. Quem preza tanto por gráficos realistas ou próximo disso sempre me pareceu alguém preguiçoso no quesito imaginativo. Posso estar enganado, é claro, mas esta sempre foi minha impressão.
    Boxing é uma delícia de jogar, é que nem o Tennis também do Atari, realmente dispensa qualquer tutorial, é ligar e jogar, qualquer pessoa entende o que tá acontecendo. E ambos possuem uma fluidez incrível!
    As vezes a gente não quer nenhuma complexidade de um Street Fighter ou até um King of Fighters, as vezes a gente só quer jogar de boa e dar risada do que está acontecendo, sem ter que saber como cada personagem de comporta ou algo assim. Boxing é uma das melhores opções para este tipo de momento.
    Curti muito o post, deu saudades de jogar este grande clássico. Pena que tem sempre aquela galera que o menospreza, julga ultrapassado e um monte de outras coisas. A vida tem dessas coisas mesmo.
    Feliz 2017, Ulisses! Bora jogar!

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    1. No caso do Adventure eu abro uma exceção Cadu, o jogo é realmente pobre graficamente e o dragão realmente parece um pato. Kkkkkkkkkkk Mas por outro lado o jogo Adventure tem uma imersão e conjunto de coisas para fazer que está no mesmo nível de um jogo de Master System, mesmo com suas limitações. Não é à toa que Adventure é considerado um dos primeiros RPG´s da história.
      É isso mesmo Cadu, cada jogo te oferece algo de bom, um jeito de jogar. Eu adoro gráficos realistas, mas também gosto de um bom jogo de tabuleiro ou um Atari para me divertir.
      Abração Cadu!!!

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