Time Hollow: Nintendo DS

Time Hollow é baseado em duas coisas. Tempo e decisão. A decisão ou atitude modifica os caminhos da nossa vida para o bem ou para o mal, e muitas vezes tomamos decisões sem saber ao certo que tipo de desdobramentos teremos no futuro.



A outra coisa é o tempo, a mesma decisão tomada em determinado momento pode gerar consequências diferentes se tomada em outro. Por exemplo. Alguém que decide se casar aos 25 anos vai ter um futuro diferente se a mesma pessoa decidisse fazer isso aos 35. E diferente entenda-se por diferente mesmo, não necessariamente melhor ou pior. O tempo muda tudo, mesmo usando as mesmas decisões. Tudo depende do que fazer e quando.

Mas e se você pudesse alterar o tempo? Fazendo dele uma "simples" variável de suas ações? É sobre isso que trata Time Hollow da Konami para o Nintendo DS.



Estamos na "pele" de Ethan Kairos, um estudante comum da Kako High. O game começa como um dia comum bem no estilo comercial de margarina, onde Ethan e seus pais conversam na mesa da sala onde estão jantando ( o comercial seria perfeito se fosse o café da manhã… mas o clima é o mesmo...). Amanhã será o aniversário de Ethan que completará 17 anos e isso gera uma certa tensão na conversa familiar daquele dia. Neste ponto o comercial de margarina se torna mais para uma trama mexicana.



O pai, distante, parece preocupado com algo que Ethan não consegue alcançar mas que jamais teria a audácia de perguntar o que era. A mãe, totalmente atenciosa com os dois e sempre de bom humor serve a comida e pergunta se está boa. Ethan mostra vários arranhões na mão que Sox, o gato, fez nele quando ele foi dar banho no bichano, ela ri. O pai se assusta e só se acalma ao saber que era o gato… o homem estava bem estranho naquele dia, embora, em geral, não fosse de falar muito mesmo.

Ethan, típico adolescente, faz algumas perguntas e insinuações do que ganharia no dia seguinte, o pai desconversa sem ser rude e se retira, a mãe, Pamela, mesmo atenciosa, não leva a conversa adiante, a única coisa certa daquela refeição era que os pais de Ethan iriam conversar com ele sobre algo sério, mas só amanhã, como disse o velho. "-No dia em que completasse 17 anos..."

Nesse ínterim, a nuance de “novela da Televisa” fica mais intensa, Derek, o tio de Ethan, aparece na casa pedindo um empréstimo ou algo assim, e o pai de Ethan, após relutar em ceder qualquer benefício ao parente, praticamente o expulsa de lá aos berros depois que Derek fala algo indelicado e os dois acabam passando do ponto do diálogo para a quase briga. Derek vai embora prometendo que Timothy, o pai, iria se arrepender... No final Ethan foi para o quarto e no dia seguinte... absolutamente tudo mudou!



Ethan sonha que seus pais estavam perdidos dentro de algum estabelecimento completamente tomado por chamas e ele vê seus pais passarem por um portal entre as chamas. Um terrível pesadelo! Ethan acorda assustado, era só um pesadelo mas... percebe que o quarto mudou um pouco, a roupa de cama não é a mesma e o chão mudou de textura e cor. Ele ficou apavorado com aquilo, como se já não bastasse o pesadelo. Mas antes de sair da cama ele toma mais um susto! Sua mão, que até a noite anterior estava tomada por aranhões profundos de Sox, simplesmente desapareceram, a mão estava limpa! Sem sinal, marcas ou cicatrizes! Ele ficou atordoado!

Ao levantar, seu tio, Derek chega no quarto e pede para ele ir tomar banho e tomar café... mas espere! Derek não mora lá! E na noite anterior saiu aos berros com seu pai, o que está acontecendo!? Pensava Ethan que estava meio acordado e meio sonolento ainda. -Onde estão meus pais? Pergunta Ethan. Derek, surpreso e estranhando um pouco responde calmamente.

-Ethan, seus pais desapareceram faz 12 anos, você está dormindo, não acordou ainda?

Ethan então se lembra de tudo, como se tivesse recebido um soco na cara, as coisas voltam a fazer sentido na cabeça dele. De fato seu tio tinha razão. Ele vivia com ele já que seus pais haviam desaparecido faz 12 anos! Mas e o pesadelo e as lembranças tão vívidas daquele jantar? Seria um sonho aquilo também? Mas aí tem um pequeno agravante na desisão em saber se o que ele está vivendo é o real ou é sua imaginação. Nesta manhã estranha, ao acordar Ethan percebe que tem um buraco, uma passagem pequena para outro lugar no seu quarto, mais uma carta e uma caneta “diferente”, é a Hollow Pen…



Time Hollow é um adventure, você aponta, clica, abre menus e interage com vários personagens. No jogo você recebe uma caneta especial que é capaz de fazer buracos no espaço/tempo, isto é, é possível ir para o passado e mudar as coisas para que o presente se modifique conforme suas ações. A estratégia de vários jogos para DS era aproveitar ao máximo as funções da canetinha do portátil, e nada melhor que um point and click para fazer este trabalho.

A caneta se chama “Hollow Pen” e com ela podemos “desenhar” um círculo no ar, em qualquer lugar, e dentro dele podemos tocar e interagir com coisas do passado que estavam exatamente naquele local onde abrimos o buraco.

A caneta possui uma energia que a cada buraco aberto ela é gasta, e é aí que podemos perder o jogo ou não. Pois no decorrer dos capítulos temos que resolver enigmas e acertar o local exato onde devemos abrir um buraco para poder alterar algo que vai resultar em um desfecho interessante no nosso presente. O jogo todo está na busca de Ethan por respostas do desaparecimento de seus pais e na busca de uma forma de poder trazê-los de volta.

Mas foi o que eu disse no início, uma ação hoje pode desencadear efeitos bons ou ruins e todos eles são muitas vezes inesperados. E é aí que outros personagens vão aparecendo na vida de Ethan, alguns serão transformados por ele, de forma intencional ou não. O jogo é basicamente isso. Você, a caneta, um problema no presente e a possibilidade de fazer coisas no passado para alterar esse presente. Além disso temos mais uma ferramenta no jogo. São os Flashbacks!

Do que adianta ter o poder de mudar as coisas se Ethan não sabe quando e onde usar? “Quando”, é respondido durante nossas conversas e investigações com personagens do game, e “onde”, é revelado pelos Flashbacks. Eles são como visões que Ethan tem e que acaba virando imagens na nossa tela de menus. Essas imagens que mais se parecem com fotos jornalísticas de um evento passado, vão nos guiando para onde devemos apontar as investigações e em que lugar usar a Hollow Pen para modificar as coisas.



Inclusive aquele “sonho” dos pais dele em um lugar coberto por chamas nada mais é do que mais um Flashback. A gente precisa buscar informações para resolver essas visões e quando tudo estiver parcialmente revelado, usamos a caneta para descobrir o que realmente cada uma dessas visões significam. Os Flasbacks são como “motores” que fazem a trama se desenvolver. Os principais pontos de encontro de Ethan e seus amigos são:

A Biblioteca, onde buscamos informações sobre registros de jornal de fatos que ocorreram na cidade.

A escola, onde a maioria do pessoal convive diariamente com Ethan e local que está muito presente na trama.

O café Chronos, um ponto de encontro dos personagens quase como um espelho do Central Perk (não é Park, quem assistiu sabe) do seriado Friends. Embora não tenha um sofá…



Chronos é a personificação do tempo, outros locais receberam nomes com referência ao tempo, como por exemplo o restaurante “Eterna”, e os sobrenomes de todos os personagens são derivações dos números, veja só alguns sobrenomes: Onegin Twombly Threet Fourier Fivet Sixon/ one two three five six… respectivamente.

“...E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo 
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido 
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito 
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo...”

Trecho de “Oração ao Tempo” Caetano Veloso


Esse “para fora do teu círculo” e “outro nível de vínculo” da letra do autor acima, me veio a mente jogando Time Hollow. Precisamos fazer círculos com a caneta para abrir os buracos no tempo e os vínculos entre os personagens podem mudar drasticamente, indo de grandes amigos até meros desconhecidos um do outro.

Tudo depende de como Ethan mexe no passado. Um exemplo concreto. Em um dos cenários, Derek, seu tio, montou um Café e deu o nome dele de Chronos, mas tempos depois ele faliu o negócio que hoje está nas mãos de uma outra pessoa. E com uma atendente chamada Olívia. Mas um dia Ethan tem um flashback de seu tio completamente desolado e sem saber o que fazer na mesa do Chronos em algum momento de um passado distante.

Ethan abre um buraco no tempo e com base neste flashback coloca uma carta através do buraco que abriu, essa carta contém dicas diversas de como montar um “Café de Sucesso”, quase como uma ajuda “espiritual” do SEBRAE para pequenos empreendedores.



Ao fechar o portal, as duas telas do DS se apagam… e ao voltar a luz, Ethan se encontra no seu quarto com um belo e caro presente em cima da cama, um presente do seu tio. Um cara de sucesso e atual dono do Chronos. O presente é porque ele retornou ao dia de aniversário dele, o dia em que tudo começou. E a atendente do Café é a sua esposa ( de Derek) e não mais a Olívia...

Naquele momento Derek se lembra apenas de ter recebido um bilhete muitos anos atrás e sabe que ele mudou sua vida mas não sabe que foi Ethan que fez tudo isso. Esse exemplo é só um dos vários e exaustivos movimentos que fazemos com a caneta Hollow Pen para chegar ao desaparecimento dos pais de Ethan e ao mesmo tempo arrumar os problemas que acabam surgindo junto com as soluções toda vez que resolvemos mexer no passado.

O jogo explica porque não podemos duplicar dinheiro com a caneta Hollow Pen, por exemplo. Embora com este poder não seria necessário duplicar dinheiro fisicamente, o leque de possibilidades seria imenso, indo desde um cartão “maroto” da Mega Sena até a compra de ações da Apple em 1980. Mesmo assim o jogo faz uma explicação.



Se você pegar uma nota de 50 reais, abrir um buraco no tempo de 5 segundos atrás e colocar a nota com a versão “antiga” dela lado a lado em cima da mesa, no futuro teríamos duas notas de 50? Não. No momento que retiramos a nota do presente e enviamos ela 5 segundos no passado, a outra, a do passado, automaticamente deixa de existir pelo simples fato dela ter sido excluída da sua linha do tempo ao ser retirada do seu futuro de 5 segundos à frente. Portanto sempre teremos a mesma nota de 50.



Time Hollow é um jogo mediano, bonito com uma trilha de fundo legal mas com uma trama linear demais para um adventure e também fácil demais. Se você busca desafio no DS, fuja de Time Hollow, mas por outro lado o jogo é cativante e tem personagens interessantes. Jogá-lo é quase como assistir a um pequeno filme, não chega a ser uma novela da Televisa como eu brinquei no início do texto, mas aos poucos vai desenrolando a trama, que apesar de linear, tem uma premissa legal. Tudo bem, essa coisa de viagem no tempo e espaço não é nada original, mas mesmo assim vale se você estiver ciente de que o desafio é baixíssimo e o fator rejogabilidade idem. Time Hollow é um jogo para relaxar sem maiores preocupações.





Comentários

  1. O DS conseguiu ressuscitar os tais adventures de tela, talvez tenha chamado mais atenção pelo uso da stylus, fugindo daquele estilo mais paradão. Apesar das viagens temporais, eu não sei me manteria jogando por mais algumas vezes, soa um pouco cotidiano e menos destrambelhado que o Phoenix Wright, inclusive o layout lembra muito.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O hardware do DS tinha potencial tanto para os games estilo GBA quanto os de PC poin n click, mas não sei porque Doc, eu acho que o DS ficou muito restrito a histórias e temas mais junevis... no quesito adventure, pode ser desconhecimento meu mas eu tenho a impressão que se ele focasse também em jogos mais maduros como os PC´s sempre fizeram, poderiam conquistar uma fatia a mais de mercado.
      Valeu Doc!

      Excluir
    2. Tem o Hotel Dusk Room 215, que pessoalmente não joguei porque fiquei com uma impressão ruim do jogo anterior da produtora o Trace Memory que não curti nem um pouco e olha que gostei dos 3 primeiros Phoenix Wright.

      Excluir
    3. Esse vou testar Sílvio, eu gostei, joguei um pouco para ver o sistema. O DS tem jogo com estilos muito variados!
      Abração!

      Excluir

Postar um comentário

Por enquanto todos os comentários serão moderados. Em breve o blog voltará ao normal.