Tryrush Deppy: Sega Saturn

Tryrush Deppy. Confesso que este jogo me pegou pela nostalgia. Eu sempre faço o possível para dissociar nostalgia de jogos antigos porque se a gente prende um sentimento de busca nostálgica a nossa motivação de jogar, então, por tabela, estamos diminuindo a beleza e a real importância que os jogos antigos possuem, que é a diversão e o entretenimento.

Se você joga absolutamente tudo que for antigo só pela nostalgia e não pelo que o jogo é em si, então você está delegando ao jogo um serviço baixo de mero gatilho emocional para relembrar coisas boas que passaram. Isso pode até ser bom para você, mas não tem nada a ver com videogame. E isso é ruim.



Mas eu não sou radical, por isso eu usei a palavra “só”, ou poderia usar somente, unicamente, exclusivamente etc. Quero dizer que a nostalgia é boa e é natural algumas vezes, repetindo, algumas vezes. Ela é um sentimento humano e não podemos evitar que ela venha e atue nas nossas lembranças. Quando eu vi as imagens pela primeira vez deste jogo do Saturn eu tive uma lembrança muito forte da minha infância.

A imagem do jogo é muito parecida a um desenho que eu assistia quando era bem pequeno, faz tanto tempo que nesta época a Xuxa não tinha um programa de TV ainda, não tenho certeza, mas acho que não tinha e a programação infantil era basicamente recheada de enlatados americanos traduzidos para os pequenos latinos consumirem á granel.

O tema “carros e animação” não é novidade, recentemente saiu até um filme que possui justamente este nome: “Carros”. Mas o engraçado é que esta versão do filme não tem quase nada a ver com o traço e o “espírito” do desenho que eu assistia, por outro lado, Tryrush Deppy é muito parecido com o desenho da minha infância. Eu até pensei que fosse um jogo baseado naquela trama do desenho antigo. Mas não tem nada a ver, são coisas distintas.



Em Tryrush Deppy temos um mundo onde carros são “pessoas”, eles são totalmente antropomorfizados. Até a forma de se locomover dos personagens é uma forma bípede e não rodando suas quatro rodas. As rodas inferiores são como duas pernas, as superiores dois braços, os faróis, os olhos, e o para choque a boca.

A animação é muito rica, principalmente porque os japoneses fizeram o trabalho estilo anime neles, colocando olhos bem grandes para expressar com mais eficiência as emoções dos carrinhos.

Deppy, o carro Taxi, é o personagem principal do game. Precisamos vencer um rally que vai cortar os Estados Unidos de lado a lado. O jogo não tem textos ou falas, só animações, mas pelo que deu para entender, Deppy vai participar deste rally só para impressionar uma garota (carro fêmea) que ele gosta. Mas o jogo é um plataforma e não corrida, cada fase é um trecho que avançamos. Essa mistura ficou interessante, é basicamente como participar de um desenho animado mesmo.



Dentro das fases é possível apenas atravessá-la ou ir atrás de itens que depois aparecem na tela de finalização de fase na forma de bônus. Eu tenho quase certeza que é fundamental pegar esses itens para ver o final “bom” do game, porque eu zerei e no final teve uma bela animação e tudo certinho, mas a garota que Deppy se apaixona acaba se casando com outro carro e ele fica arrasado, inclusive aparece uma tela final dizendo “Love is Over”.

Mas o game não possui uma seleção de dificuldade, a única coisa que podemos mexer é se vamos jogar com 3 ou 5 vidas, por isso eu estranhei o final e logo percebi que existem coisas extras para buscar no game. Inclusive eu tive acesso após finalizar Tryrush Deppy, a um jogo tipo Slot Machine na tela de opções. Um mini game.



As fases são curtas, lembra muito alguns jogos simples de Game Boy no que diz respeito ao tamanho das fases. Mas o design é bem feito, e tanto itens como inimigos são bem distribuídos. Deppy não usa “energia clássica de games”, sua energia é a gasolina e que possui um medidor que fica na parte inferior esquerda da tela.

Quando o ponteiro estiver baixo é preciso pegar latas de gasolina GAS, que ficam distribuídas na fase. O interessante é que sua gasolina é literalmente sua “vida”, e portanto ela vai gastando, quer você se mexa ou não, é um sistema de tempo disfarçado pois a todo momento o nível de combustível é sua fonte de preocupação. Acabou a gasolina, perde uma vida.



Mas tem mais um agravante nisso aí. Mesmo sendo um jogo de Saturn, o game foi desenvolvido para ter apenas dois botões de ação. O pulo e a corrida. Pulamos em cima dos inimigos para destruí-los ou usamos uma corrida que ao apertar o botão, o carrinho para e vai carregando… carregando… e uma barra aparece para medir essa intensidade, ao soltar o botão ele sai feito um louco destruindo o que tiver pela frente.

Mas essa ação gasta um bom tanto de gasolina, é como se fosse uma nitro, e portanto nem sempre é útil usar esse especial. Tanto é que se a gente usá-lo duas ou três vezes sem fazer uma recarga, nosso tanque acaba. Se os inimigos nos atingirem a gente perde gasolina também e como se não bastasse, o carrinho Deppy age de forma bem “humana” o que atrapalha muito em alguns casos. Eu explico.

Ser algo nos atinge, uma animação de derrapagem se inicia e perdemos alguns centésimos de segundo ali, se a gente usa a corrida a batemos em uma parede, ficamos tonto igualzinho a um personagem de Street Fighter II e ficamos mais alguns centésimos de segundo ali, presos a animação sem poder se mexer e perdendo tempo. E aqui neste jogo a frase “Time is Money” é na verdade “tempo é gasolina.



Nossa atenção quase que gira mais em torno do nível de combustível do que dos desafios do jogo em si. As latinhas de gasolina são bem generosas mas é preciso descobrir onde elas estão, nem sempre estão no meio do caminho, e por isso precisamos buscá-las.

E quando estamos quase no final do combustível, que é um momento de tensão pois precisamos rapidamente achar uma lata de reposição, o pessoal colocou mais uma animação humana no carrinho. Bem no momento que mais precisamos de velocidade para recuperar o combustível, Deppy se sente fraco e começa a caminhar devagar, se arrastando, “faminto” por energia.

Quer dizer, além de estarmos ferrados com o ponteiro lá embaixo do medidor, ainda por cima seu personagem começa a se mover como uma lesma. Temos também a famosa invencibilidade que muitos plataformas possuem, nada de estrelas, o que nos torna invencíveis por determinado tempo é uma bateria. Bateria de carro obviamente…



Os chefes são sempre máquinas enormes e assustadoras para o Deppy, e antes de começar o combate o jogo indica onde está o ponto fraco de cada um dos chefes. Isso facilita um pouco, mas saber onde atacar é bem diferente de conseguir atacar. Eu gostei muito porque se por um lado o game traz coisas fáceis por outro consegue manter um bom nível de desafio.

É um jogo para crianças mas que respeita o jogador de várias idades. Fugindo um pouco do tema mas reforçando essa coisa de jogos bons independente do público-alvo, eu vou falar da Barbie. Devo confessar que já joguei, ou melhor dizendo, tentei jogar alguns jogos da Barbie, por exemplo. Totalmente de mente aberta. Eu pensei: “Se for um bom jogo, então eu jogo”.



Mas é difícil. Pelo menos dos que eu tentei, todos eram extremamente maçantes e chatos, nem meninas pequenas, que é o público-alvo da marca, conseguiriam gostar daquilo. Era como se o jogo fosse feito para que as pessoas odiassem a marca mesmo. E eu não estou abstraindo o tema feminino, os rosas, as delicadezas e todas essas coisinhas de mulher.

Eu foquei em tudo, eu busquei alguma coisa de valor ou que chamasse minha atenção. Não achei nada de valor. Qual o problema da Mattel com games?



Deixando a Barbie de lado e voltando ao carro/gente, eu destaco a beleza do trabalho de desenho das fases. Tem uma parte da cachoeira que é lindo ver a água caindo em 2D, algo do nível do pessoal da SNK, até parecia que eu estava jogando algo de Neo Geo dentro de um arcade!

Mas não. A equipe por trás do jogo se chama Nihon Create, que o publicou, e o desenvolvimento foi da System Supply N Tech e da Graphic Factory Tetra, o game foi lançado em 1996, um ano muito interessante para os videogames como um todo.



Apesar de Tryrush Deppy ser algumas vezes “humano demais”, isso não é algo que inviabiliza a jogatina como se fosse um erro de programação, nada disso. São detalhes que vamos superando e absorvendo durante o rally que corta o país americano.

O jogo é divertido, é curto, é bonitinho, oferece um desafio razoável e possui colecionáveis, o que aumenta seu fator de rejogar. Mais um belo game em 2D para um console que, infelizmente, ficou indeciso, ora pendendo para o 2D, ora para o 3D. Mesmo assim, para quem nunca teve um Playstation, o Sega Saturn foi interessante do mesmo jeito.




Comentários

  1. Joguei Tryrush um tempo e ele me decepcionou. Observando as fotos parece um grande jogo aproveitando o 2D do Saturn, mas ele é bem simples, temas genéricos e o controle achei desastroso. Se portasse ele num Super Nintendo ou até num Mega Drive não perderia tanto a qualidade. Talvez o fato do console ser fraco com o 3D e ainda contar com jogos curtos demais tenha levado o Saturn mais fácil pra lona, além é claro da programação difícil e erros comerciais de vendagem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ele não tem um porte de Saturn, ficaria bem na categoria 16bits, tem razão Doc. O controle eu gostei, embora seja um pouco diferente do padrão. O tamanho do jogo e o fato dele ter saído numa plataforma que poderia oferecer mais recursos deixa a desejar em alguns pontos mesmo.
      Abração Doc!

      Excluir
  2. Lindos gráficos. Realmente ele tem muito de saudosismo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O desenho em questão era Carangos e Motocas, o traço é bem similar.
      Valeu Scant!

      Excluir
  3. Uma coisa é inegável: o jogo é bem bonitinho!
    Esse é mais um dos que eu nunca nem tinha ouvido falar. Saturn não é meu forte, sou um “seguista fajuto”, como diria o Tchulanguero lá do Vão Jogar! haahahaahaha
    Bacana o fato do jogo ter sua simplicidade nos controles e ao mesmo tempo ter algumas pequenas complexidades interessantes como o lance da gasolina. Deu vontade de conhecer esse, vou anotar na lista aqui.
    Quero criar uma placa de carro legal também! kkkk
    Ótimo post!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah! o emplacamento é legal né? O jogo é bom e não tenta mecânicas mais estranhas só porque está rodando num Saturn e foi isso que eu gostei. A complexidade do jogo deve ser proporcional ao seu game design, tipo jogo 3D tem por princípio ser mais complexo nos controles.
      Cadu, de certa forma se você não jogou muito Saturn pelo menos deve jjogar Playstation pois ambos possuem muitos jogos em comum, entretanto tenta usar o emulador SSF que comentei lá no seu post do PI, Saturn tem bons jogos só dele que valem á pena e claro, vão aparecer por aqui!
      Valeu Cadu!

      Excluir

Postar um comentário