Como a Música Ficou Grátis

O post a seguir é uma breve resenha do livro somada a minha argumentação pessoal. Portanto nem tudo que o post cita se refere ao livro, sem perder, obviamente, a intenção de resenha e divulgação da obra. O livro aborda três pilares que se alternam entre os capítulos:
  1. Pirataria
  2. Gravadoras
  3. Tecnologia do mp3

Enfim, tudo que envolve a ascensão e queda do CD, e ao mesmo tempo o surgimento e explosão do mp3 e da internet como um todo.

O autor Stephen Witt demorou quase cinco anos fazendo entrevistas com pessoas chaves destas três colunas (pirataria/gravadoras/engenheiros) pesquisando documentos, fotos e todo tipo de fonte que envolviam a indústria da música, a pirataria de som digital e a criação do mp3. Não é um livro com termos técnicos, nada disso, é de fácil leitura e aberto para todos os públicos.

Eu fiquei surpreso com muitas coisas que o livro desmitificou na minha mente. Por exemplo. Eu sempre pensei que o compartilhamento de músicas na rede fosse algo totalmente descentralizado e feito por pessoas aleatórias que compravam um CD na loja, chegavam em casa, ripava (método que copia um conteúdo do CD) o mesmo e depois subia na internet no formato .mp3. Mas a realidade é muito mais densa, complexa e diferente. Pelo menos na parte humana da coisa. Os primeiros arquivos ripados e subidos para a rede em larga escala foi feito por um pequeno conjunto de pessoas que se reuniam em grupos distintos nos chat´s e fóruns de discussão e que rivalizavam para ver quem fazia o vazamento de um álbum antes do outro, quase como um jornalista obcecado por um furo de reportagem.

Entenda a palavra “vazamento”. O início da pirataria veio de dentro da indústria com o vazamento de álbuns que ainda não tinham chegado nas lojas, e esse era o grande problema para as gravadoras. Um álbum de 6 meses ou 1 ano que era pirateado também era problema, mas um problema bem menor. A caça era atrás dos vazadores privilegiados, isto é, das pessoas que faziam parte da indústria e tinham acesso a essas cópias prensadas de CD´s.  A grande dor de cabeça das gravadoras era devido as pessoas que postavam estes vazamentos na rede, pessoas que eram na verdade ligadas a própria indústria bem de perto ou que tinham contato com essas fontes. Afinal de contas, um consumidor “normal” não poderia ter acesso ao álbum de um artista meses antes dele aparecer nas lojas mas...

Funcionários das fábricas de prensagem dos CD´s, DJ´s, produtores musicais, e todo tipo de profissional que pudesse ter acesso a um álbum ainda não lançado oficialmente poderiam fazer este estrago. Esse era o gargalo da coisa e o grande problema. Os lançamentos “não oficiais”, os vazamentos davam dor de cabeça para as gravadoras em todo período pré álbum. Os CD´s que eram ripados depois de já estarem no mercado e nas lojas era um problema com certeza, mas bem menor. Isso se deve ao fato de que o potencial de vendas de um álbum lançado fica dentro de uma janela  de tempo de 4 semanas iniciais ao lançamento, após isso, geralmente as vendas despencam e se mantém em um nível médio ou baixo. Mas se alguém disponibiliza este álbum uma semana antes do lançamento oficial, um impacto nas vendas pode ser sentido, pelo menos é o que gravadoras sustentam.

Não é à toa que grande parte do livro está estruturada nas entrevistas concedidas por um dos maiores, se não o maior vazador de álbuns da história da internet. Um rapaz chamado Glover. Um jovem que trabalhava na fábrica de CD´s da Polygram, que depois foi comprada pela Universal, e é aí depois dessa fusão que a coisa ficou muito interessante para Glover e para todos que baixavam músicas ilegais em mp3. Depois desta fusão, o leque de artistas que eram apenas da Universal agora também estavam ao acesso do funcionário da Polygram. Claro que a pirataria não é culpa ou responsabilidade de apenas um adolescente. Durante a popularização da internet e do mp3 a partir do final dos anos 90 muita gente entrou neste esquema pelos mais diversos motivos. Satisfação pessoal, tédio aliado ao gosto por computadores, ideologia de um mundo sem direitos autorais etc.

Mas independente disso, todas essas pessoas eram um número relativamente pequeno se comparado a minha ideia inicial de que qualquer um que tivesse um modem em casa seria um potencial “subidor de arquivos” mp3.

Basicamente era isso. Grupos de pessoas que mantinham contato com fontes privilegiadas aos álbuns, que se relacionavam nos chats da internet pré banda larga e que com o passar do tempo formavam grupos, com hierarquias e estruturas complexas, geralmente formadas por jovens entre 15 e 30 anos que gostavam de computadores e disputavam a primazia para ver qual grupo faria um vazamento importante antes do outro. E “importante”, entenda-se por álbuns badalados que estavam prestes a serem lançados para vender horrores e tinha grande divulgação e apoio de suas respectivas gravadoras, uma montanha de dinheiro aplicada em marketing e divulgação, enfim, as joias da coroa. Em geral essas pessoas não se conheciam pelo nome real e alguns eram “apenas”, as fontes de vazamento, mas em geral quem administrava os sites e repositórios eram outras pessoas que mantinham contato com as fontes. Sempre de maneira discreta. O próprio Glover não era muito conhecido virtualmente exceto pelo seu “chefe”, que recebia os arquivos e os soltava o mais cedo possível para registrar a glória. O nome dele era Kali.

O livro traz muita coisa a respeito dos dois. Glover não fazia isso para Kali “de graça”. Kali dava a ele acesso a vários sites fechados a membros que continham uma imensidão de arquivos de música de todo que é tipo. Coisa que um internauta jamais poderia conseguir naquela época, só se tivesse convites de outros membros e um bom conhecimento de informática.

Outra história muito boa e que vale à pena conferir na íntegra é a forma como o mp3 surgiu e chegou ao posto de “sinônimo de música digital”. Por exemplo. Eu nunca poderia imaginar que o maior rival do MP3 e a grande guerra de formatos que se deu neste período inicial da música digital foi… mp2 vs mp3.

Eu pensava que o mp2 era uma versão antiga do mp3, mas não é nada disso. O mp3 e MP2 são o equivalente a SEGA vs Nintendo. E ironicamente, tem uma “colher” da Philips nesta história da música digital, a mesma empresa que foi crucial para a briga entre Sony e Nintendo que culminou com o surgimento do Playstation. O Mundo da tecnologia se parece as vezes com uma extensa novela mexicana quando estudamos como as empresas líderes de um setor se relacionam uma com as outras.

O lado empresarial também é visto de perto, e mostra como as gigantes da música, principalmente a Universal Music Group e seu CEO, Morris, um homem “das antigas”,
fez fortunas para ele e para as gravadoras e como sofreu com as mudanças da tecnologia e a queda vertiginosa do formato CD, mas mesmo assim, com ou sem crises, ele foi o responsável por grandes conquistas e descobertas de artistas que renderam muito dinheiro para todas as gravadoras em que trabalhou. Ele dizia que

“não existem sucessos regionais, o que existem, são sucessos mundiais que não foram devidamente divulgados”

De certa forma eu concordo com esta frase. Muitos jogos aqui do blog do “tio Ulisses” tendem a ser bons jogos mas pouca gente teve contato com eles na época em que foram lançados, inclusive eu. Não é incomum eu trazer um post sobre um game que estou conhecendo só agora, no momento em que eu jogo para poder escrever sobre ele. Só depois com a emulação é que percebemos o quanto os jogos antigos tinham a oferecer, além dos clássicos e títulos que só as locadoras traziam via importação. São sucessos que não se tornaram sucessos.

Nenhum jogador das antigas, principalmente aqui no Brasil absorveu com plenitude a biblioteca de jogos de Mega Drive, Super Nintendo e muito menos de Nintendo, talvez o máximo que nós chegamos a ter com um certo esplendor foi a biblioteca do Master System, e mesmo assim com ressalvas. Claro, eu digo isso olhando no todo, os clássicos e manjados nós chegamos a ver, mas eu pergunto e os “clássicos não descobertos?”

Voltando ao livro…


A música ficou “grátis” porque simplesmente o mundo inteiro começou a baixar mp3 por canais diversos da internet e jamais se pagava qualquer coisa por isso. O mp3 jamais teria saído dos laboratórios de acústica se não fosse pela pirataria, isso é algo até mesmo constrangedor e chegou ao ponto de se tornar tabu dentro do Fraunhofer, o berço da tecnologia situado na Alemanha.

Os engenheiros responsáveis eram cientistas que vendiam suas patentes, da forma mais correta, honesta e rígida que um alemão poderia fazer, mas a realidade é irônica, e chegou-se a um determinado momento em que as licenças para obter a tecnologia legalmente gerou uma fonte vibrante de dinheiro para o Fraunhofer, mas as empresas só estavam agora interessadas em licenciar o mp3 porque todo mundo já tinha músicas neste formato de origem ilegal dentro de seus HD´s. Logo, todo “radinho” que tocava .mp3 pagava licença ao Fraunhofer, mas este “radinho” só tinha demanda porque nele o consumidor final entupia de mp3 ilegal na sua maioria.

Os inventores do mp3 sempre foram defensores absolutos de direitos autorais e do mp3 pago como um modelo, mas de uma forma obtusa eles estavam lucrando muito exatamente porque existia uma demanda ilegal de mp3 que invariavelmente sustentava a licença de sua criação de maneira indireta e quase maliciosa. Uma verdadeira “cama de gato” para os engenheiros alemães.

A música digital, mas em especial os formatos que possuem perdas como o .mp3 e seus “derivados”, aac, ogg, etc, são o fruto de um acumulado de conhecimentos da Anatomia Humana, Ciência da Computação, Física Acústica e obviamente da Matemática. O formato digital muito conhecido pelos apreciadores de música de qualidade alta o FLAC (sem perdas) por exemplo, é matematicamente mais simples no que tange o conhecimento de anatomia, aplicado a sua fórmula de codificação.

Um Flac é “só” um arquivo comprimido do original, sem perdas mas muito maior que um mp3. É claro que o FLAC e outros formatos lossless também possuem suas “mandingas” matemáticas, mas eles não precisam enganar o ouvido, não precisam de “gambiarras” na forma de algoritmos inteligentes para fazer um guarda roupas caber dentro de uma bolsa de mão. E é isso que um mp3 faz com a música. O mp3 precisa entender as “falhas” da audição humana, trabalhar em cima delas, dar ordens a cada santo bit de informação da música, e entregar um som final muito bom, bom o suficiente para que a maioria das pessoas (consumidores) não sinta diferença em testes cegos, ou eu deveria chamar de “testes surdos”? Enfim...

É devido a essas falhas que podemos fazer uma música de CD a 1400kbps passar a ter 320kbps sem que a maioria sinta diferença alguma. E olha que o aac, por exemplo, possui uma tecnologia superior, mais atual e sempre foi muito elogiada pelo pessoal da Apple que a utiliza mas não é sua invenção ao contrário do que muitos pensam. Mas eu pessoalmente não sinto diferença entre o velho mp3 e o aac, arquivos com taxas inferiores pode até ser perceptível uma diferença de qualidade que destaque a superioridade do formato aac, mas em geral o MP3 ainda paira como onipresente nos tablets, PC´s e smartphones. Quando eu falo em falhas da audição humana eu quero dizer falhas parecidas com a da nossa visão, que quando exposta a uma quantidade de imagens estáticas que se alternam em alta velocidade nós temos a sensação de movimento. A audição possui falhas parecidas a esta e outras até mais bizarras. Você sabia que o nosso ouvido não age como se fosse um microfone natural que capta os sons de forma indiscriminada?

Sabe quando a gente vai na loja comprar um fone de ouvidos e observa que a faixa de resposta fica entre 20Hz e 20kHz porque é nesta faixa que nós ouvimos aproximadamente? Pois é, mas não é só isso. Devido a um processo evolutivo nosso cérebro dá “preferência” a certos tipos de som ao invés de outros, mesmo dentro desta faixa, em outras palavras, nossa audição é seletiva e discriminatória. Trabalhando estas falhas um arquivo comprimido pode jogar fora certos tipos de sons pegando apenas uma amostragem deles ou privilegiar a música de forma variável, dando mais bits a sons mais complexos e reduzindo a “bitagem” em sons mais simples. Talvez você já deva ter visto arquivos que são chamados de bit rate constante e bit rate variável.
Glover e Morris

Embora eu tenha dado um bom destaque aqui no post sobre formatos de áudio e coisas mais técnicas, o livro não reflete isso na mesma proporção. A base do texto do autor foca mesmo nas aventuras de Glover (o vazador) e na biografia de Morris (o chefão da Universal), um cara que, só para o leitor ter uma ideia, dentro de uma festa com gente como Bono (U2), Lady Gaga, Taylor Swift, Rihanna e Mariah Carey, era para ele, Morris, o foco das atenções. Esse não foi um exemplo genérico, realmente aconteceu quando o canal VEVO de música foi lançado. Ele era o cara.

A música mudou muito, melhor dizendo o formato que carrega a música mudou muito com o tempo. Hoje muita gente consome streaming pago, mas muita gente continua baixando arquivos de forma “torrencial” e ainda existe, acreditem, pessoas que fazem questão de comprar CD´s em caixinha, principalmente os japoneses… dizem. É algo que envolve não apenas tecnologia mas também cultura, hábitos e questões sociais diversas. Aqui mesmo no Brasil existe um comércio relativamente estável de livros usados e CD´s usados. As pessoas ainda usam CD sem dúvidas.

Neste livro a gente vai entender como uma banda de qualidade e até mesmo consagrada, mas que está em um mal momento, pode ser deixada de lado se um “hit” de baixa qualidade local promete fazer mais dinheiro se for lançado em grande escala, mesmo que por um período curto. E que mesmo tendo a melhor tecnologia, os argumentos da Ciência sempre vão ficar em segundo plano para vender um produto ou uma ideia, onde os conluios e politicagens típicas de grupos humanos tendem a dar a última palavra. Caso que aconteceu na trajetória do .mp3 vs mp2. Mesmo o mp3 sendo superior quase foi apagado da história. A gente já viu este filme em casos como o VHS vs Betamax etc.

Como a Música Ficou Grátis é indicado para quem gosta de música, porque traz um pouquinho dos bastidores desta indústria, e para quem gosta de assuntos ligados à internet e à tecnologia também.

Fonte:
WITT, Stephen. Como A Música Ficou Grátis. Intrínseca, 2015.


Comentários

  1. Fala Ulisses, que post foi esse?! Uma enxurada de conhecimento que jamais pensei em ter sobre CDS e Mp3.
    O fato de mp3 ser gravador por determinados individuos, de ter exisitido um dos maiores "pirateiros de mp3 do mundo", sobre mp2 e mp3 serem rivais, da tecnologia envolvida no mp3, aac, ogg e cia. Shows de bola.

    Eu fui um dos cara que acompanhou as mp3 desde seu início na internet e depois intupindo cds com elas para ficar ouvindo.

    Alias, sempre quando passo em lojas que vendem CDS com americanas e cia, fico imaginando como isso ainda existe ou se realmente ainda vende.

    Fiquei muito curioso de ler esse livro, vou procurar ele depois. Ótima dica mesmooo! Valeu Ulisses!

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    1. O livro é bem interessante mesmo Ivo! Ele fala de vários aspectos por isso tem a chance de agradar a todos, desde o fã de música até o cara que gosta de detalhes da indústria. Obrigado pela visita, abração!

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  2. O pessoal sempre gravou bootlegs, programas musicais das rádios e até faziam vinis piratex. O MP3 é somente um meio como outro para fazer copias. A propria industria já estava capengando desde os anos 70.

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    1. Caraca Doc, desde os anos 70!? Eu nem sabia disso. É incrível como as mídias novas e outras tecnologias podem por a nokaute toda uma indústria... tipo a transição do vinil pro CD ou do CD pro Mp3 e similares!
      Valeu Doc, abração!

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  3. Rapaz, que bacana! Não fazia ideia que o vazamento de MP3 era algo feito por pessoas ligadas à indústria, sempre achei que era uma galera que fazia meio aleatoriamente mesmo, tipo, grupos virtuais em redes específicas (Napster, mIRC, e por aí vai). Isso explica pq vira e mexe aparecia uma música “unreleased” na Internet. Eu que gosto de música eletrônica me deparei com várias dessas, e eram músicas que de fato não apareciam em CD nenhum... que coisa louca! Muito bom, agora fiquei com vontade de ler o livro!
    FLAC me lembra a época que eu achava que era DJ, inclusive... eu morria de medo de pegar mp3 vagabundo e tocar em sistema de som grande, dava umas merdas enormes... pode enganar nosso ouvido, mas em um sistema de som equilibrado fica bem nítido que tem muita coisa “filtrada” ali.
    Fraunhover é uma palavra que eu lembro de ter visto no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, caraca, não sabia que era quem estava por trás do mp3... e nem sabia da guerra com mp2, também imaginava que 3 era a evolução do 2... e o MP8 é aquele dispositivo chinês pirata que toca uma porrada de coisa? huahuahuahuauhahua
    Cara, muito bom mesmo o post! Agora quero ler essa bodega! haha
    Valeu demais!

    PS: voltando de férias, não assuste se surgir uma enxurrada de comentários! huahuahuauhahuahua

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    1. Valeu Cadu!
      Eu também tive várias revelações ao ler o livro. Muita coisa legal que eu não sabia.
      Abração!

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