quinta-feira, 8 de junho de 2017

Jogos Eletrônicos & Eu


Marcus Garret é um colecionador de videogames. Mas antes de colecionador, ele é um ser humano. Óbvio. Certa vez um professor que eu tive na 7ª série do fundamental disse isso para mim ao corrigir um texto meu.

"Ulisses, o óbvio também precisa ser dito. Quando você escreve, não escreve para você mas para outra pessoa."

O que meu professor dizia era que o óbvio para mim poderia não ser para quem lê e vice-versa. E quando eu faço esse destaque, "antes de colecionador ele é um ser humano", eu destaco exatamente a essência deste livro.

O livro é todo recheado de causos e lembranças do autor com o tema videogames e computadores como pano de fundo. Misturado com um sabor de biografia que unido ao estilo divertido e rico que o Marcus escreve, faz do texto algo muito gostoso de ler.



O lado humano fica bem exposto na escrita dele, fazendo um contraste interessante entre coisas eletrônicas e experiências de vida, como amigos e família.

Um dos pontos fortes do livro é como coisas simples do cotidiano são resgatadas com uma precisão incrível! Outras pessoas próximas a ele o ajudaram a recuperar lembranças, nomes e datas. Foi o que deu para entender. O trabalho final ficou primoroso!

Sabe aquelas histórias de locadoras, videogames e coisas da infância que a gente lê pela internet ou ouve e revive a nossa própria história através do texto de outra pessoa? Pois é. É exatamente isso que acontece em "Jogos Eletrônicos & Eu", só que de uma forma muito mais intensa, pesquisada e rica.

Grosso modo, o livro é um relato biográfico das conquistas e perdas relacionadas aos jogos e videogames que o Marcus vivenciou. Algo que abrange toda esta fase inicial da chegada dos primeiros videogames no Brasil e dos computadores também. Ele usou, jogou, teve acesso, brincou, experimentou... Marcus estava lá, no "olho do furacão" dos acontecimentos.

Lembra do Game & Watch, Atari, TV Jogo 3 (um tipo de Telejogo), relógios da Casio com joguinhos, Odyssey, MSX, Amiga, TK 2000 e disketes Verbatim?

Ou River Raid, Karateka, Elevator Action, Defender, Spy vs Spy? A lista é longa!

Ao mesmo tempo as experiências do autor com todo esse universo são relatadas com um ar de biografia/jornalismo. E o mais importante é a qualidade das informações.

Ele fala da nossa experiência com os videogames no Brasil. Ele cita jogos nacionais, empresas nacionais, a nossa visão e o nosso modo de ser com os videogames. Esse é o diferencial do Marcus. Ele traz um retrato dos videogames com o "selo Brasil".

Eu amei cada pedaço do livro. Eu revivi o meu passado lendo ele. Da mesma forma que a gente revive fatos há muito esquecidos quando se reúne com amigos de infância, de colégio etc. Se o amigo leitor for menor de 30, vai aprender e se divertir com os causos, mas se o autor for maior de 30 anos, vai ter uma experiência mais intensa devido as lembranças de uma época em comum com a do autor.

Segue um trecho do livro que demonstra bem essa coisa de “comigo também era assim”!

“Claro que pedi um Atari de Natal! Surpreendentemente, o pedido seria atendido se eu passasse de ano, o que estava garantido, contudo, havia uma “pegadinha” ao estilo das letras pequenas no rodapé de um contrato suspeito: eu teria que concordar em vender o videogame antigo – que de antigo não tinha nada, eu o tinha ganhado fazia pouco mais de seis meses! Nas cabeças dos adultos, dos pais da gente, possuir dois consoles era inconcebível...”
Marcus Garrett


O estilo da escrita, as comparações as analogias aliadas a forma precisa que o Marcus reconstrói o passado dele, lembrando nome de lojas, datas e jogos, acaba dando ao texto um jeito de documentário biográfico mas com a leveza de diário de escola. Isso é sensacional.

Eu sou 5 anos mais jovem que o autor. De cara isso é estranho porque quase sempre que converso com alguém sobre jogos antigos ou eu sou bem mais velho ou meu interlocutor tem a mesma idade que eu.

Eu nasci praticamente na mesma época em que o Atari era lançado nos USA, mas nesta época o Marcus já era um garoto, quer dizer, alguns anos depois, em 1983, o ano que os videogames explodiram no Brasil, ele já tinha idade para vivenciar tudo aquilo e eu era apenas um garotinho de 5 anos.

Tem coisas que ele cita, aliás várias, no livro que eu acabei me identificando. Meu Deus como o tempo passa. Por exemplo. É difícil para muitos jogadores das antigas ver uma logo da Sega em um console da Nintendo, certo? Isso já deve ter acontecido com você, amigo leitor. Mas outras coisas também me causam um efeito similar.

Em determinado momento do livro, Marcus fala da Madonna que na época era uma cantora “lançamento”! Caraca. Isso me pegou pela nostalgia em cheio. Na minha cabeça até hoje é difícil dissociar a Madonna daquela cantora jovem e vulgar que adorava “chocar” o público com sua sensualidade nas músicas e clipes.

Eu basicamente não consigo ver a Madonna “coroa” entende? Por outro lado, sei lá, o Roberto Carlos, por exemplo, ele não me causa esse sentimento porque ele é de outra época. Eu não vi o Roberto Carlos jovem, mas a Madonna...

Eu, Ulisses, tive o prazer de alugar jogos de Atari mas na época do Master System, porque a locadora da minha cidade fazia esta “concessão retrô” já naquela época. Mas o Marcus alugou jogos de Atari na época do Atari!

Eu cheguei a mexer com disquetes de 5 polegadas enormes mas não era da minha época, quando eu iniciei com computadores eu já usava disketes de 3 ½ polegadas, o diskete padrão, mas o Marcus teve contato com os disquetes grandões, com jogos em fita k-7 e coisas do tipo.

Não porque ele é um pouquinho mais velho que eu, mas o diferencial é que ele estava com a idade certa, no momento certo. O Marcus pegou o exato timmimg das coisas. E o mais importante. Teve acesso a elas.

Quando o Mega Drive chegou no Brasil eu quase tive uma overdose de excitação. Sem dúvida o Mega Drive foi o console que mais mexeu comigo e mais me deixou com vontade de tê-lo. Os gráficos e sons além da temática dos jogos eram coisas de outro nível.

O Mega Drive foi a melhor definição da palavra “absurdo” na minha concepção na época. Mas para o Marcus, pasmem, o Mega Drive não chegou a causar o mesmo impacto que causou em mim. Isso porque ele já tinha acesso ao Amiga. Um computador que era incrível graficamente e usava o mesmo processador Motorola 68000 do Genesis. Isso em 1987!

Eu sempre tratei a nostalgia como uma faca de dois gumes. Há momentos em que ela é boa e outros que ela distorce as coisas e até faz mal.

Neste caso específico, o do livro “Jogos Eletrônicos & Eu”, temos uma carga da boa nostalgia, daquela que nos faz repensar a vida e tudo que já vivenciamos.

É um livro de memórias que com certeza vai acertar em cheio o coração daqueles que experimentaram e viveram o início dos anos 80. E se você for mais jovem. Vai gostar mesmo assim, caso videogames seja um de seus passatempos preferidos.

Um livro apaixonante.





Título: Jogos Eletrônicos & Eu
Autor: Marcus Vinicius Garrett Chiado
Editora: Edição do autor

10 comentários:

  1. Gosto muito de lembrar a época de infância com os jogos. Vou baixar o livro já! Apesar de não ter vivido essa geração especificamente, estou sempre buscando conhecer novas velharias e tenho me divertido muito com os jogos do Atari 2600... Com certeza vai ser uma ótima leitura. Obrigado pela dica!

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    1. Pô, se você gosta de Atari vai adorar ler o livro do Garrett. Diversão na certa!
      Abração Lucas!

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  2. Tava procurando uns livros sobre o tema e vou adicionar esse na lista.

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    1. No site dele tem o outro livro que traz muita coisa e é mais focado nos consoles e menos biográfico. Muito bom também, já baixei e vou postar aqui. Ótimo livro que era pago e hoje o Garrett liberou gratuitamente.
      O Garrett fez o que eu sempre quis de certa forma. Trazer a experiência do Brasil antigo com os videogames.
      Valeu Doc, grande abraço!

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  3. Tenho dois livros de dele físicos no meu acervo.
    não conhecia esse. ótima dica.

    abç!

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    1. Eu estou lendo o 1983 e 1984, em breve post um resumo por aqui Scant. Esse em especial é um pouco diferente porque tem esse filtro mais pessoal do Garrett, e por isso ficou muito bom também, além de diferente dos outros dois. Tudo boa leitura!
      É isso aí Scant, obrigado pela visita!

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  4. Fala Ulisses, que dica maneira de leitura cara! Juro que não conhecia e estou baixando agora. Eu adoro leitura desse tipo (eu mesmo escrevo jeito e contando minhas histórias) e fiquei super curioso em ler "Jogos Eletrônicos & Eu" e penso até no futuro escrever algo assim. E o melhor de tudo que esse leitura é grátis ^^ nem imaginava isso! Shows de bola Ulisses! Vou ler com carinho e valeu pela dica! As pessoas deveriam colocar mais dicas como essas nos sites. Valeu meu velho! Grande Abraço.!

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    1. É isso aí Ivo! O autor divulgou mais os outros dois livros, e este ficou mais esquecido. Mas todos são muito bons e trazem aquele olhar brasileiro sobre os consoles da época. Eu acho que o tema com foco em Brasil é escasso mesmo, mas sempre que possível eu leio algo e coloco aqui no blog.
      Ivo, grande abraço e volte sempre!

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  5. Adorei o ensinamento do seu professor! É o tipo de coisa que vc se toca quando tá do outro lado da moeda (sem entender e se sentindo mal pq era óbvio para outra pessoa), mas não na situação dita.
    Gostei do intuito do livro, contar histórias pessoais com os games. Cacilda, não é EXATAMENTE isso que eu tento fazer naquela porcaria de blog que eu tento manter vivo? huhuahuauhahauahua
    Isso pra mim é fugir do óbvio, de certa forma, inclusive. Tem algum tempo que eu vi um post de um cara resmungando à beça que as pessoas andavam escrevendo demais sobre as experiências delas e passando pouco tempo dizendo coisas que no julgamento dele eram as "coisas interessantes de verdade" (informações adicionais, curiosidades e outras informações "frias"). Fiquei meio pasmo, pq eu normalmente espero mais saber sentimentos e situações que outras pessoas viveram, exatamente o oposto do que ele disse, e ele disse de maneira que ele estivesse coberto de razão, meio sarcástico e agressivo. Bom, tô fugindo do tema aqui, vou voltar... só queria dizer que não estou acostumado a livros e outros tipos de artigos/matérias impressas sobre games que contam algo mais pessoal do que, digamos, "técnico". Que legal! Esse tipo de coisa que me fez gostar do Console Wars, acho que antes de qualquer outro preciso ler o "Jogos Eletrônicos & Eu".
    Tenho a sensação que vou passar o mesmo que vc passou, reviver o meu passado lendo o dele. É justamente isso que gosto nos blogs de games!
    Muito verdade isso, aliás: "Nas cabeças dos adultos, dos pais da gente, possuir dois consoles era inconcebível...”
    HAHAHAHA!
    Demais, demais!!!
    As suas comparações com as situações que o Marcus Garrett viveu já me acenderam um monte de coisas aqui na cabeça. Nem a pau que a Madonna é coroa, sai dessa! Ela é menina causadora até hj! ahahhaa
    Ótimo post, Ulisses! Curti demais! Vou ler esse livro assim que possível!

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    1. Tem coisas que a gente esquece totalmente mas outras acabam marcando, essa do texto eu sempre lembro. As vezes até conversando "ao vivo" a gente fala "A" e a pessoa entende "B" kkkkkk isso é normal, são falhas de comunicação. ^_^
      KKkkkk mas Cadu, é isso mesmo e você faz bem, é que o Garrett resolveu condensar em livro. E tem outra, se eu não me engano, eu li uma entrevista dele dizendo que ele só jogou essa fase e pulou a geração Master System Nintendo Mega Drive etc, de certa forma ele não é um fã de videogame como um todo mas só e especialmente deste recorte inicial dos primeiros consoles. Acho que a experiência dele mais forte são com estes consoles e computadores.
      KKKK Madonna pra mim vai ser sempre a estrela do Pop dos 80´s. Mesmo que ela esteja "causando" até hoje eu não consigo falar da Madonna artista sem remeter ao passado. ^_^
      Lei sim Cadu, são poucas páginas em relação a média dos livros biografia, vai ser bem legal!
      Bom, no caso do tipo de texto eu entendo que todo tipo é válido. Tem gente que escreve com detalhes, data de lançamento, empresa, curiosidades etc e outros focam mais na relação pessoal deles com os jogos. Eu acho sensacional os dois tipos de texto sobre games, aliás eu acho incrível qualquer texto, informação ou experiência com games. Quanto mais melhor. Tentar por um filtro e dizer o que é "válido" ou o que não é é um absurdo! A pessoa que defende um padrão de escrita sobre games está inconscientemente validando um Certificado De Burrice. Se fosse um TCC ou trabalho de escola, aí tudo bem. Tem casos em que devemos obedecer a certos critérios e ponto final, mas isso não tem nada a ver com internet, blogs e fã page´s, que por definição são livres de formas e pré requisitos.

      Por exemplo. Eu as vezes cito a desenvolvedora de um game, as vezes não, depende, se eu acho que dentro daquilo que eu vivenciei jogando é interessante citar, eu cito, se não, não. Mas quem segue um esqueminha e cita informações técnicas e todo jogo resenhado isso está certo também, é o estilo de cada um. São essas diferenças que fazem a internet legal.
      Não sei se você lembra mas eu tenho uma birra com notas em jogos, se for notas numéricas então, pior ainda kkkkkkkkk, se for com precisão de décimos então, meu Deus. O que significa "jogabilidade 7,5"???!!! Mesmo assim eu entendo os motivos de quem faz isso, eu sei que é legal dar notas mesmo sabendo que elas não possuem validade real. Eu mesmo já cogitei a possibilidade de fazer um sisteminha de classificação no blog mas... eu não consigo kkkkkkkkkk quem faz eu entendo. ^_^
      Eu penso assim. Se a pessoa ficou na dúvida de quem produziu Mega Man e quando ele foi lançado, basta dar um control T e verificar na próxima aba na wikipedia, simples não? Nas a minha experiência com Mega Man não vai estar na Wikipedia (que eu gosto e uso bastante), cada coisa tem seu jeito e estilo. Cada um faz do jeito que for mais interessante. Afinal de contas Cadu, escrever é se expressar, e jogar é se divertir, simples! ^_^
      Realmente não consigo entender os motivos desse cara que você leu um post, não mesmo.
      Cadu, grande abraço!

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