Electrician: Famicom Disk System


Quem diria que um herói do Famicom Disk System poderia ser um cara qualquer. Alguém que a gente vê por aí. Um profissional do dia a dia. Nada de superpoderes ou habilidades mágicas por estar em um universo igualmente mágico e fantasioso. Nada disso. Um cara normal. Um eletricista que tem por objetivo recuperar o quadro elétrico de uma cidade, que no caso é Nova York, a cidade da primeira fase. O objetivo de Electrician é arrumar a distribuição elétrica dos prédios e instalações que foram danificadas por agentes diversos.

A cidade basicamente está em “pânico”. Logo na abertura do game a gente encontra uma pequena representação da “Big Apple” na imagem do seu maior e mais representado cartão postal nos cinemas. O World Trade Center. De repente a tela toda começa a tremer, tremer e tremer. Segundos depois, uma das cidades mais iluminadas do mundo está nas trevas, sem energia elétrica. Cabe ao eletricista resolver a questão e recuperar a luz e a paz na cidade. O jogo é dividido basicamente em dois momentos.


O primeiro estamos dentro de um prédio onde aparecem quartos e salas no escuro total e ao lado delas duas linhas de energia principais que deveriam estar abastecendo toda a instalação. É aqui que o eletricista começa sua missão. Com o botão “B” passamos a fiação e com o “A” nós pulamos. O pulo é necessário para alcançar as duas escadas na lateral do mapa e também para desviar de inimigos. Os inimigos vão desde pequenas larvas até aranhas enormes, ratos entre outros bichos que ao passar pela fiação que você está repondo, ela se desfaz parcialmente. Essa é a dinâmica do jogo, a dinâmica do primeiro momento em que estamos dentro do prédio.

Em um segundo momento. A fase se divide na chamada “underground”. Nela percorremos por baixo dos prédios, estamos literalmente nos esgotos, na parte inferior da cidade. Aqui o eletricista não tem como objetivo demarcar uma nova fiação. Aqui é o momento do jogo em que temos uma missão de busca para chegar ao “outro lado do mapa” e alcançar a entrada de outro prédio. Nesta tela novos personagens como tartarugas, fantasmas e as velhas e boas minhocas/vermes estão presentes para nos atrapalhar. No começo a relação do eletricista com estes inimigos é um pouco confusa pois nem todos se comportam da mesma forma.

Podemos pular nas tartarugas, pular em cima delas e ganhar pontos, mas elas não morrem, apenas ficam achatadas por alguns segundos e voltam a caminhar. Talvez um eletricista não tenha a mesma força ou a sede de destruição que um “encanador” possa ter...

As aranhas que aparecem nos prédios não podem ser pisadas, temos que pulá-las. Sem falar que elas soltam teias em pontos específicos que ao tocá-los ficamos presos por alguns segundos, um tempo que pode significar perder uma vida se outro bicho estiver vindo em nossa direção.

As fases são divididas em 2 partes. A parte interna do prédio, na qual passamos a fiação e a outra parte onde passamos por baixo das estruturas. O prédio possui as salas em total escuridão e nas extremidades delas temos as conexões que precisam ser reconectadas. Ao fechar o circuito, as linhas passam de verde para laranja, indicando que ali está energizado. Quando fechamos o circuito os bichos não podem mais desfazê-lo, assim como ao passar pelos fios eles morrem com o choque. Neste momento uma animação como “ZAP” aparece. O jogo tem muito dessas onomatopeias. Inclusive quando o eletricista morre.

Quando a luz é restabelecida em um dos andares o quadro que antes era um bloco preto, passa a representar móveis e coisas que estão ali dentro do recinto, como geladeiras e TV. Isso é muito divertido! É uma sub recompensa pelo esforço dentro da tela de jogo, é algo que estimula cada vez mais a gente ir fechando o sistema. As vezes quando um andar é iluminado, aparece do nada correndo pela tela um ladrão com um saco nas costas, pois ele provavelmente estava se aproveitando do black out para roubar coisas. Por incrível que pareça o eletricista pode voltar pela escada e pegar o ladrão se quiser. Isso garante muitos pontos e até mesmo lida extra! Ele é um herói duplamente. Uma pelo perigo do seu trabalho e outra quando atua feito um policial novaiorquino.







A parte chamada underground possui outras características. Por exemplo. Nós temos uma visão externa dos ambientes, quer dizer, em Nova York podemos ver carros policiais e as torres gêmeas de longe, em outra fase é possível identificar cenários como o velho oeste ou os cassinos de Las Vegas. Existem alguns truques nestas fases subterrâneas. Se a gente chegar bem embaixo destes pontos turísticos e pular, geralmente por ali existem pontos, vidas e coisas do tipo. Ao achar um desses itens, a figura superior muda de alguma forma. A Casa Branca se apaga, um cactus vira um totem ou um carro policial de Nova Yorque vira de cabeça para baixo.

Quando estamos em corredores escuros, aqui o botão de fiação se transforma em uma lanterna que acende e apaga. Ela é útil para iluminar paredes e canos invisíveis no escuro que impedem nossa passagem, e também usamos ela para destruir fantasmas que se diluem ao tocar na luz. Essa parte underground é graficamente dividida em 3 partes.


  1. A parte superior que fica as imagens icônicas de lugares famosos
  2. a segunda parte que é o meio, onde temos canos, corredores e escadas, e...
  3. a terceira parte que é o “fundão”, o esgoto mesmo, com água e tudo. Devemos evitar passar pelo esgoto mas algumas vezes é inevitável porque paredes e canos acabam impedindo nossa travessia do ponto “A” para o ponto “B”, até chegarmos ao próximo prédio.


O jogo tem um caminho bem diferente dos jogos de Famicom que nós estamos mais acostumados a jogar, já com a “pele” Ocidental do Nintendo. Claro, há exceções, como no caso do Metal Gear que todos sabem de sua origem no antigo MSX. Electrician vai um pouco por este caminho. Ele é de 1984 e foi lançado nos computadores Atari 400 e 800. Depois a Kemco, em 1986, trouxe esta versão para o Famicom de disquete. Eu gosto muito quando as bibliotecas de um computador antigo se cruza com as de consoles. Principalmente neste caso, uma plataforma americana servindo o sistema japonês que não chegou aqui no Ocidente. Por curiosidade eu dei uma olhada no da versão de Atari. É graficamente inferior mas possui um charme mais adulto porque possui um tipo de medidor de tempo chamado de Battery Level e também um medidor da fiação, que é medido em kWh.

Embora a versão do Famicom Disk System tenha um gráfico muito superior, ela acabou optando por fazer um jogo mais acessível visualmente, sem estes medidores. Eu acho que isto foi uma decisão para não deixar o jogo com cara de simulador, talvez isso foi feito para deixar Electrician mais “limpo” visualmente e digerível para um público menor. Eu adorei os medidores do Atari, principalmente por serem ponteiros “analógicos” que giram!




Eu fico imaginando os japoneses em 1986 utilizando um console e tendo que esperar o jogo carregar da mesma forma que nós, brasileiros, fizemos em 1994 em diante com o Playstation. Jogar Famicom Disk System é um teste de paciência em alguns momentos. Frases como “now Loading” e “Please Set Disk B” são praticamente obrigatórios em quase todos os jogos. O sistema utiliza disquetes, e o jogo ficava em parte no lado “A” (geralmente tela inicial e boot) e em parte no lado “B”, onde geralmente era o local do jogo em si. Quem jogava em computador já estava acostumado com telas de carregamento já naquela época, claro, mas estamos falando de um console, a atmosfera é bem diferente.



Electrician lembra um pouco a mecânica de City Connection porque neste jogo temos que passar com o carro pelas pistas, e onde passamos a pista vai mudando de cor indicando a trajetória. O que de certa forma é o que fazemos com os fios de cobre. Inclusive, em City Connection começamos em Nova York e passamos por vários pontos turísticos como pano de fundo.

O jogo apresenta alguns bug´s estranhos. Por exemplo. Do nada, a parte superior de salas ou corredores que antes eram “transparentes” para a cabeça do eletricista, algo necessário para fazer pulos, de repente ficam “sólidas”. Daí ao pular batemos a cabeça no teto e se tiver um buraco ou um inimigo por baixo nós perdemos uma vida. São errinhos bobos de colisão que podem prejudicar o gameplay. Principalmente por serem aleatórios. Se um jogo possui um bug com local específico, nós podemos desviar ou algo assim, mas em Electrician esses errinhos de colisão podem simplesmente nunca aparecer ou… é realmente imprevisível. Neste caso específico. A única forma de arrumar é perdendo uma vida, pois na próxima tentativa a coisa sempre arruma. O problema é se estamos na última. Eu diria que isso não chega a desmerecer o jogo, mas é algo que devemos saber e entender que eventualmente pode acontecer, em qualquer fase. Mesmo com tela de loading em cada transição de fase, mais alguns e eventuais bug´s. Electrician é um jogo bem divertido, original, e viciante.



O jogo me trouxe algumas lembranças de Mario, mesmo sendo 1 ano mais velho que o clássico Super Mario Bros. O jogo possui uma divisão de mundos, possui tartarugas, o herói é um profissional normal (eletricista vs encanador) e também possui a parte secundária de toda fase que remete ao Mario Bros de 83, por ser ambientado em um esgoto ou lugar mais "underground" entre canos e paredes. No início de cada mundo, podemos escolher entre 3 opções de velocidade dos objetos e inimigos em tela. É uma forma diferente de medir a dificuldade do jogo, principalmente em um jogo onde não existe fácil, médio e difícil. Em todo começo de mundo podemos alterar essa velocidade, indo de low até high. E falando em dificuldade. Da metade para o final o jogo adquire mais elementos de desafio. Como por exemplo uma fagulha elétrica que percorre toda fiação e pode te atingir. O interessante é que este estalo percorre todo a fiação fisicamente, independente dela estar ativa ou não. Isso significa que tanto os fios verdes (inativos) quanto os laranjas (ativos) são percorridos pelo estalo, desde que estejam fisicamente conectados. A única forma de escapar é se abaixando para não levar choque.


Electrician não é denso, ele lembra mais as primeiras levas de jogos do Famicom que ainda não usavam chips especiais para bombar memória e gráficos. Mas ele possui uma premissa muito original e divertida, não é algo básico e simples como o jogo Mario Bros de 83 ou Joust de 82. Mas também está muito longe de um Mega Man ou um Castlevania. Ele é assim, uma pérola que possui o seu lugar entre tantas estrelas e clássicos da plataforma Nintendo.


Comentários

  1. não conhecia. parece bem maneiro. o visual do personagem lembra um pouco o Mario. Não entendo porque nessa época eles eram fissurados em bombeiros e eletricistas.

    abç!

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    1. Kkkkk era um tempo em que os personagens estavam se formando ainda eu acho. Mas também teve um tempo um pouco antes que todos adoravam por sapos nos jogos. Isso sempre muda com o tempo.
      Abração scant!

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  2. Boa parte dos jogos de FDS tinha potencial mas o load e falta de refinamento deixaram muitos games toscos (mas longe do ruim). Por isso me focava mais nos exclusivos. Ainda vou revisitar melhor esse sistema. Esse jogo do eletricista eu nem tinha prestado atenção na época, vou buscar.

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    1. Claro, guardada as proporções, eu vejo um pouco do Sega CD no Disk System ^_^. Se as coisas na parte técnica tivesse dado certo, imagine que legal ter um Nintendo Disk System feito para nós.
      Valeu Doc!

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  3. Tá aí um jogo que eu nunca tinha ouvido falar. A biblioteca do Famicom disk System ainda reserva boas surpresas.
    ótima análise, parabéns!

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    1. Reserva sim, Super Game Retro. Principalmente por estar "ao lado" de uma das maiores bibliotecas dos videogames (nintendo) e ao mesmo tempo estar isolada na região asiática. Se tivesse dado certo, o FDS poderia ter sido um potencializador daquilo que já era gigante. O mercado do NES.
      Abração e obrigado!

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  4. Fala Ulisses, beleza? Estou atrasado no seu blog cara! Esse correria me deixou passar um monte de posts seus! Não conhecia esse game! E olha que sou fissurado no FDS! Mas como o Scant Tales disse, realmente o pessoal era fissurado em bombeiros, eletricistas, encanadores e muito mais hahahaha! Alias sinto falta desse simplicidade de um herói do cotidiano fazer parte de um jogo, juro que não me lembro mais de ninguém assim.
    Ótima análise Ulisses e pode deixar que saí da COVA e venho visitar mais vezes aqui. Grande abraço meu velho!

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    1. Valeu a força, Ivo! O FDS apesar de ser um japonês "de raiz", possui jogos mais acessíveis do que o neo geo pocket, por exemplo, este sim, com biblioteca bem japonesa e de difícil gameplay para quem não sabe japonês. Estou jogando essas coisas mais obscuras e assim que eu for terminando de jogar eu posto por aqui para quem quiser se aventurar também. ^_^
      Abração Ivo!

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  5. Tem aquela cara de joguinhos de arcades logo do iniciosinho, devo admitir que eu não conhecia esse game. Mas sou louco pra ver de perto um Famicom Disk System funcionando.
    Há! Eu queria aproveitar pra falar uma coisa. Visando aproximar pais e filhos usando os games como justificativa, eu queria convidar você à participar dessa corrente que eu acabei de criar: https://youtu.be/N9Faozhw5SM

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    1. Valeu pela visita Yoz, se der eu participo. Abração!

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  6. Não fazia ideia da existência desse jogo, engraçado que copiaram um jogo que envolve uma profissão e colocaram até tartarugas pisáveis! huauhahuahua
    Já pensou se jogos de profissões estivessem na moda até hoje? Teríamos Crazy Uber, As Aventuras do Técnico de Informática, COMPRO OURO & Knuckles, entre outras jóias. Que pena que a moda acabou! haha
    Algum dia vou tentar emular essas coisas de Famicom Disk-System, parece uma boa ideia.
    Belo post, como sempre! hehe
    Valeu Ulisses!

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    1. Kkkkkkk será coincidência do eletricista com o encanador? ^_^ Putz Cadu, sensacional kkkkkkkk daria até um post essas brincadeiras de profissões nos games ashuahsauhsuahus acho que o mais difícil seria o técnico de info, tem cada história hilária que a gente lê por aí kkkkkkkkk o FDS tem coisa boa mas é preciso pebeirar bem.
      Obrigado pela visita, Cadu. Abração!

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  7. Como diria um amigo meu: "o lance é viver e aprender".
    Me orgulho em dizer que entendo do período old-school do entretenimento eletrônico, afinal de contas o vivi intensamente e atualmente o estudo (sim, frases como essas denunciam a idade...).
    Eis que boa surpresa não tenho quando vejo um jogo, de um sistema que eu gosto bastante, que eu não conhecia.
    Melhor ainda conhecer um "velho novo game" quando a jornada inicial de conhecimento é introduzida por um texto tão bom e interessante.
    Parabéns e muito obrigado pelo texto e pela descoberta, "Senhor 8 bits"!

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    1. Um velho novo game... é bem isso que sinto ao jogar tantas maravilhas que nunca pude conhecer na época. Valeu Eduardo, que bom que gostou do texto! Tem alguns jogos que surpreenderam bastante quando fui pesquisar e jogar, com certeza vou trazer mais coisas do FDS por aqui.
      Valeu mesmo pela visita Eduardo!

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    2. Opa!
      Postei na conta errada.
      Só pra deixar claro "quem é esse Eduardo".
      Kkkkkkk!

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