domingo, 29 de outubro de 2017

Morph - Amiga CD32


No ano de 1993 muita coisa estava acontecendo no mundo dos games. A corrida armamentista Sega vs Nintendo estava no auge, muitas empresas estavam entrando na paranoia do console com CD que prometia ser a mídia eterna e definitiva, consoles diversos pululavam de todo canto e gigantes estavam próximos de aterrissar em nosso solo, especialmente Sega Saturn e Playstation. Uma época bem divertida. Foi neste ano que a Millennium Interactive lançou para o Commodore Amiga CD32 um jogo de puzzle com cara de Super Nintendo e telas de transição com cara de Sega CD. O Amiga CD32 é um console baseado no computador Amiga, e o computador da Commodore já tinha uma longa jornada de jogos publicados, eles não eram novatos e fizeram um excelente console. Pense no Amiga CD32 como um “3DO bem planejado”, isto é, com uma biblioteca de jogos mais robusta, um foco de negócios melhor e uma empresa com mais know how que a Panasonic. Jogos é uma coisa bem pessoal mas o 3DO tinha coisas que eu jamais poderia jogar, neste sentido o acervo do Amiga é mais amigável para mim.


É essencialmente um fenômeno europeu, por isso tanto Morph quanto vários outros jogos do sistema possuem elementos de jogo europeu, coisas que são difíceis de descrever mas que qualquer jogador sente ao jogar e ouvir um jogo oriundo deste continente. Morph. Um puzzle europeu que surgiu em uma época onde o mercado de games parecia mais uma guerra civil, com milícias surgindo de todos os lados.





O jogo é bom, mas se destacar em um cenário desses é muito complicado. Pulverização de ideias é uma frase que define bem a época

Se você olhasse para qualquer lado que não tivesse um encanador ou um ouriço, era como olhar para um campo nublado e pouco definido. É fato que o povo europeu possuia uma predileção para computadores maior que consoles naquele período e isso aliado a outros fatores pode ter feito do Amiga CD32 um console bem mais querido do que eu, um latino com teses baseadas em emulação, possa imaginar. Já que embora ele seja console, ele também é um computador Amiga na forma e estrutura dos jogos.

O puzzle é baseado nas 4 formas que seu personagem pode se transformar. Bola de borracha, água, bola de metal e nuvem… obviamente tem uma referência aos 4 elementos aqui mas não é uma analogia boa porque a física dessas formas possuem algumas qualidades bem específicas e superiores a simples porções de matéria. Por exemplo, no formato bola, podemos quicar e boiar sobre as águas. No formato água, eu posso apagar fogueiras e escorrer entre vãos mas… também posso entrar pelo ralo e perder uma vida. Todas as formas possuem vantagens e pontos fracos e o que dá mais um teor de dificuldade ao puzzle é que essas transformações são limitadas, isto é, se eu estou de um jeito é preciso pensar bem se vale à pena passar para outro formato.

O level design é magnificamente construído para que a gente faça o que deve ser feito. O objetivo do jogo é recuperar engrenagens, sendo uma por fase, que foram espalhadas devido ao incidente no laboratório de um cientista. Vamos voltar um pouco na história então. O jogo abre com a cena de um garotinho bem… mas bem estereotipado nerd, que desce do ônibus e chega na porta da residência de um cientista que o recebe muito bem. Lá dentro eles chegam no laboratório onde o professor vai fazer uma experiência com o garoto tentando transportá-lo de um ponto ao outro de uma máquina que, pelo que deu a entender, faz a materialização e desmaterialização de corpos. Era para ser apenas um teste padrão, passar do ponto A ao ponto B, mas de repente durante a transição, um raio, sim, um raio entra pela janela detona todo o equipamento do cientista, ferra tudo e a máquina solta engrenagens para todo lado e de alguma forma manda o garotinho junto com as engrenagens para uma dimensão estranha na qual ele possui agora 4 formatos não fixos para atuar dentro deste cenário. Isso não faz o menor sentido. Estava um dia de sol radiante quando ele chegou de ônibus e de repente tudo muda desse jeito?



Esse tipo de game combina a movimentação de um plataforma qualquer com os cenários de desafios que um puzzle precisa ter. É mais difícil que um jogo onde temos várias peças para trabalhar com elas com uma tela fechada, como um Tetris, por exemplo, não, aqui existe todo um cenário para ser explorado, com recursos limitados e tudo isso com um tempo pré definido para realizar a tarefa, claro, tinha que ter o tempo!


As animações de cada forma são muito ricas, os olhinhos se movimentam com o direcional, ao apertar vermelho (sim, os jogos geralmente fazem referência a cor do botão e não seu nome dentro da plataforma Amiga CD32) e para uma direção específica, mudamos de forma. Essas animações, para um jogador mais das antigas, invariavelmente vai fazê-lo lembrar daquele personagem de ajuda do Windows, o Clippy, um clips de papel com olhinhos animados, ou se você jogou bastante Super Nintendo, vai lembrar das expressões hilárias dos monociclos de Uniracers. Que não tinham olhos mas tinham o mesmo jeitão de movimentação.

Parece simples. Pegue a engrenagem a descubra a saída. Mas como cada forma possui limitações, as fases estão repletas de armadilhas e obstruções. Por exemplo, ralos vão te ferrar como água, exaustores pegam na forma de nuvem, plantas com espinhos e locais pontudos estouram a bola e até a bola de metal tem seus problemas pois ao cair em alguma cachoeira ou lago ela morre, já a bola de borracha fica tranquila flutuando. Cada caso uma situação e cada forma uma reserva limitada de transformações. Seu objetivo é passar por mundos e recuperar o número de engrenagens de cada um deles. Uma coisa legal e que deixa o jogo mais instigante é que dentro das fases além dos elementos de destruição que devemos evitar existe também "transformadores" naturais. São passagens que sem que a gente queira, nos transformam de um estado para outro quase aleatóriamente, parece aleatório mas não é. Isso significa que dependendo do local você não precisa gastar um variação para água, basta passar por um destes "transformadores" e virar água. mas é claro. É preciso saber se é este mesmo o tipo de transformação que estará presente naquele momento, nem sempre nos transformamos naquilo que queremos.

Uma coisa que está presente aqui mas não é característica de todo puzzle e eu não gosto muito, é que o desenvolvedor fez o "mistério" para ser resolvido e descoberto de um jeito só, quer dizer, existe um modo de passar de fase, descubra o modo e passe ou tente infinitas possibilidades e perca. Isso recai bastante no tentativa e erro.


Veja o jogo Tetris que citei anteriormente. Nele temos regras bem definidas mas podemos fazer várias estratégias para chegar ao objetivo. Eu posso estar errado, não joguei bastante Morph, e quando digo bastante me refiro a semanas ou ficar um mês inteiro nele, mas eu sempre passo de fase apenas e somente quando eu descubro a sequência e caminhos únicos propostos pelo level design. talvez eu seja um jogador café com leite em puzzles, e de fato sou mesmo, mas se tiver novas formas de passar de passar de fase em Morph, eu ficaria feliz e surpreso. O jogo é tão rico, colorido, cheio de interação e animações que mesmo que seja um pouco engessado neste aspecto, isso não diminui em nada a beleza do game. É mais uma observação mesmo.




Nos intervalos de fase ou perda de vida, o cientista aparece dando dicas ou puxando sua orelha, ele é como um tutor mesmo. Uma característica dos jogos europeus é que certos elementos chave dentro das fases simplesmente se confundem com o todo, espinhos venenosos são belas plantinhas que se você for descuidado vai tocar várias vezes sem perceber o que de fato te matou. Como eu disse no início o padrão de Morph é estilo jogo de Super Nintendo, e ele é excelente, é um puzzle sensacional para quem curte o estilo. O Amiga CD32 oferece gráficos melhores com certeza mas mesmo assim eu não pude deixar passar este “joguinho 16 bits” que deveria figurar entre os melhores puzzles da geração. Infelizmente a plataforma como um todo é mais conhecida apenas na sua terra natal. A Europa.

6 comentários:

  1. Os jogos do Amiga não me chamaram atenção pois boa parte deles soam burocráticos geralmente adaptados pra MS-DOS. Os de ação tinham sempre uma versão no Mega Drive, também não me cativaram. Acho o público desses computadores pessoais do ocidente um pouco toscos no gosto. Uns jogos de plataforma sem muito sal ou gerenciadores capengados. Pensei muito antes de querer rodar essa máquina, mas não vi nada com apelo suficiente. O 3DO ainda tinha umas bizarrices, como os jogos do Kenji Eno e os joguinhos pornôs que na verdade não passavam de vídeos de erotismo soft. Prefiro mais os computadores orientais, mais pautados nos clássicos domésticos ou fliperamas. Sharp X68K e FM-Towns são mais apelativos, parecem máquinas destinadas aos filhos dos donos de cartéis latinos, só assim pra ter público devido ao preço tão salgado quanto o AM32. Até o simplório MSX2 soa melhor que o Amiga. Me divirto com o Baú de Jogos tendo um ódio mortal por esse sistema

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    1. De uma forma geral a Europa tinha um gosto tosco mesmo sobre o estilo de jogos e consoles. Eu vejo o Amiga CD32 como uma forma de fazer uma ponte ao computador sem ter que efetivamente emular um. Eu tento manter o blog baseado em consoles mas confesso que a vontade de expandir e postar MSX e principalmente MS DOS via DosBox é grande. Eu acho que a Europa no caso dos games toscos se divide em ontem e hoje. Hoje os jogos são pasteurizados, é difícil saber se um AAA foi desenvolvido em Madrid ou Nova Iorque, exceto títulos que fazem questão de reforçar alguma coisa regional. Mas ontem, os consoles ditos retrogames feitos na Europa eram facilmente reconhecíveis seja no Mega Drive ou em qualquer console. Em geral eram jogos se não estranhos, no mínimo diferentes tanto na música quanto no design. Veja o caso de Zelda que ficou na mão da holandesa Philips e trouxe uma "arte" terrível e cômica ao mesmo tempo. A Europa tem ou tinha um estilo bem peculiar mesmo. Mas por outro lado a Rare britânica fez um bom trabalho, se bem que com a tutela dos japoneses. Eu acho que a "culpa" não é do Amiga CD sozinho, Doc, mas do jeito europeu de fazer consoles. Lembra do GX 4000? O console da Amstrad, famosa pelos Amstrad CPC? Foi uma fracasso sem precedentes. Eles são britânicos. É como se os europeus tentassem formar uma terceira via de consoles mas sempre tropeçaram. Por isso que olhando no todo eu gosto do Amiga CD32, apesar destas características que você citou. E falando nisso vou confessar que existe um sistema famoso antigo que eu não gosto muito, não chega a ser ódio mas... Doc, eu não gosto muito do Intellivision. Não me pergunte o motivo exato porque nem eu mesmo sei responder, sei lá, o jeitão dos gráficos e jogabilidade muito dependente de overlays... sei lá. Não gosto muito do sistema. Eu comecei a rir na parte dos cartéis latinos mas você tem razão, imagine o preço de um equipamento destes naquela época, quer dizer, computadores focados em games, putz deveria ser karo pra karalho! Sobre o 3DO eu gosto muito dele, mas faço esse filtro porque tem muito jogo injogável, tipo os eróticos que na maioria são vídeos com pequenas interações, quase a mesma coisa que um VHS pornô.
      Valeu pela visita, Doc.

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    2. Confesso que nunca ouvi falar do GX4000, ele possui algo bom ou foi um desastre completo? A máquina em si não é o problema, pois o CD32 ainda tinha Turricans, Monkey Island, adventures criativos, mas são games possíveis de jogar em outros aparelhos, a menos que a diferença das versões sejam brutais. O Intellivision não foi por persistência da Coleco se manter no mercado a qualquer custo? Soube que eles tinham um computador desastroso chamado Adam que sequer cumpria suas funções computacionais básicas.

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    3. O GX foi mal mesmo. Tinha um design legal mas não conseguiu vender bem, acho que o console possui no máximo uns 40 jogos. O Intellivision veio com o aval da poderosa Mattel, que se achava a mais poderosa no segmento de brinquedos e de fato era mas seu ego era do mesmo nível aqui da Estrela brasileira. A Mattel não foi longe com consoles assim como a Estrela, que aqui no Brasil não percebeu o nicho que a Tec Toy sobre aproveitar muito bem. Mas isso tudo não explica o porquê não gosto do Intellivision. Vou até tentar jogar algum "collection" dentro de um console mais moderno tipo Playstation 2.

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  2. Eu não sei se o termo café com leite se aplica a quem joga puzzles e vai no modo tentativa e erro, eu jogo desta forma também e não me considero café com leite não... kkkk
    Isso eu deixo pra me considerar em jogos de luta, por exemplo, onde eu sou uma piada.
    Gostei do estilo visual do jogo, ele em formato de nuvem me lembrou o personagem do Haunted House do Atari... sei que não tem nada a ver, mas lembrou! haha!
    Parece bem criativo e divertido, como todo puzzle+plataforma deve ser!
    Outro ótimo post!

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    1. Acho que visualmente tem tudo a ver mesmo a relação com Haunted House, principalmente por causa dos olhinhos. Eu poderia facilmente ver este jogo rodando no GBA, por exemplo. Jogos assim cabem bem em portáteis. Haja vista os grandes puzzles de portáteis. Valeu, Cadu.

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