The Eye Of Typhoon - 3DO


Existe uma misteriosa arte marcial chamada Kuk Cho Ho Kwon que foi herdada desde a dinastia Myoung. Entretanto ela desapareceu e hoje só resta a lenda. Após passarem muitos anos, nações asiáticas como China e Coreia do Sul entraram em estado de caos. Surgiu um boato que forças ocidentais estão procurando por essa misteriosa arte porque alguns lutadores foram destruídos e os segredos do livro de Kuk Cho Ho Kwon está começando a revelar seus segredos…

Alguém ressuscitou a arte? Quem? Mas o que parece mesmo é que o jogo faz uma relação da influência do Ocidente nos séculos XIX e XX na Ásia. Se você perceber nas imagens deste blog é possível ver que as datas de nascimento dos personagens fica entre 1844 (o mais velhinho) e 1887 (a Sauri de 18 anos). São combates que acontecem no início do século XX. Em 1905 para ser mais exato. E isso explica a tela do chefão como sendo um grande palácio europeu tentando remeter aos impérios ocidentais. A abertura do game que faz um americano cowboy levar uma surra do coreano foi uma lambança do pessoal da equipe 3DO, ficou chato e desnecessário, sem contexto, pois no MS-DOS isso não acontece. Acho que no console eles tentaram fazer um confronto de forças tipo Ryu vs Ken, mas não ficou legal. Além do fato de ser em modelagem 3D arcaica, algo que não tem nada a ver com o jogo em si.

zoom longe

zoom perto

O jogo possui personagens que remetem a cenários orientais mas também existem outros locais como lugares que lembram a Rússia, Peru, Grécia e floresta amazônica. Eu disse lembram, não temos todos eles. É inegável que o jogo possui uma boa dose de influência de Street Fighter e também de King Of Fighters, seja nos golpes ou aparência. Mas o jogo é bom, não é um clone safado ou um caça niqueis. Aliás, The Eye Of Typhoon foi lançado em 1996, era para ser um jogo de Neo Geo, foi pensado para isso, mas não deu certo a acabou sendo cancelado. Saiu para MS DOS e 3DO. Sendo que no PC ele está melhor. O 3DO quis incluir aquelas animações de "massinha" fazendo uma abertura 3D chamativa para um jogo 2D que lembra mais o estilo Super Nintendo, não ficou legal. No PC a abertura seguiu o padrão Neo Geo com artes 2D simples e coloridas, bem melhor.

Além disso detalhes dos cenários ficaram mais completos no PC também. Por exemplo, em uma fase aparece um crocodilo, no console não. Alguns elementos animados foram cortados. Não temos o nome dos lutadores abaixo das barras de energia… no PC tem. Sobre a jogabilidade eu não sei como ficou no PC pois só joguei a versão de 3DO. Este título acabou saindo apenas na Coreia do Sul, o que fez dele um jogo raro e difícil. Era para ser uma continuação espiritual de Fight Fever para o Neo Geo arcade. Mesmo assim eu percebo que o game ficou mais “moderno” e independente dessa linhagem com Fight Fever, já que a jogabilidade lembra muito mais os outros jogos citados anteriormente, Street e KOF.

Como ele está na origem atrelado à SNK os comandos refletem isso com ação nos 4 botões do 3DO, os 3 debaixo mais o de ombro. O famoso sistema "A B C D" dos arcades. Talvez por ser uma versão quase beta para o 3DO algumas coisas ficaram simples, como o stages que, apesar de serem bonitos, ficaram abaixo do apresentado se comparado ao PC, infelizmente, porque o 3DO é uma máquina totalmente capaz neste sentido. Outra coisa é que a tela nos dá como opção jogar solo ou em equipe, só isso, eu não tenho um options para mexer na música (que, diga-se de passagem é excelente) ou na dificuldade, o jogo é o que ele é.

E falando em dificuldade, The Eye of Typhoon às vezes lembra um duelo de espadas onde um simples movimento pode decidir tudo. É possível ganhar ou perder usando apenas 3 golpes bem aplicados. Defesa e ataque funcionam bem, nada a reclamar, mas para quem está começando, em fases finais a coisa fica tensa. Lutadores como o Mui, que lembra o Blanka pelo stage com pescadores e cobras, pode aplicar uma sequência de chutes que quase inviabiliza qualquer reação, é preciso ter paciência com as “apelações”, o jogo começa bem tranquilo mas depois fica bem difícil. O lado bom é que se der errado você termina rápido e se der certo, também. É difícil fazer uma luta cadenciada neste game, velocidade é tudo.



Existe um sistema de zoom que aproxima e distancia dependendo da forma que estamos lutando. A localização do zoom é tão orgânica e natural que a gente esquece que está fazendo uso dele, ficou sensacional, não é um zoom abrupto, ele é suave e competente, quase como uma lente de uma máquina fotográfica profissional.

Os golpes são fortíssimos e depois que você perde uma boa parte da barra de energia sua postura de combate muda indicando que está fraco e cansado, mas é apenas a postura isso não muda a movimentação de combate. A variedade de golpes é belíssima. Tem magia, tem pilão, tem combos tem de tudo, isso aliado a competente animação dos personagens, deixa o jogo mais intenso e  divertido ainda. Na parte inferior da tela aparecem pergaminhos que são reservas de golpes especiais mas eu ainda não entendi como usá-los. Como faz falta um manual em inglês…


Eu vou falar de cada um dos personagens seguindo as imagens da screenshot acima, começando da esquerda para a direita e caindo, na mesma ordem de uma leitura. Falando um pouco dos personagens temos o principal que é coreano, o Hoya, o da faixa na cabeça. Ele tenta fazer o papel do Ryu sendo o protagonista do game, é normal que os jogos de luta tenha uma estrutura parecida, principalmente se um título em especial fica muito famoso. Hoya possui vários golpes e é bem original no seu estilo, mesmo que lembre Ryu. Neste jogo isso acontece muito, parecem clones mas ao jogar descobrimos que são muito mais que cópias, são excelentes personagens.

Para fazer antagonismo a ele, temos o Roy, um cowboy americano que representa os USA no jogo. Lembrando que ele faz um tipo Ken Masters e apesar de contracenar na abertura, ele não é um chefão, é só mais um dos personagens selecionáveis. Sauri é a ninja japonesa que lembra um pouco a Mai Shiranui por usar sua sombrinha de uma forma bem similar ao leque da Mai. Cho Hong é a nossa Chun Li, ela é chinesa e muito veloz, é uma personagem rápida em um jogo que já é veloz! Wang Chang, o de verde na screenshot, é chinês também e faz o estilo cômico, o lutador gordo, forte e muito flexível, um dos golpes dele é uma bomba estilo Bomber Man.

Embora o stage lembre o do Blanka, devido aos pescadores e uma cobra enroscada nas árvores, Mui é um lutador da Tailândia. Possui o bom e velho clichê de lutar para defender sua aldeia. Nelson lembra o Guile por fazer parte da força aérea, mas aqui é dentro de um contexto mais antigo, com aviões de hélices, ele é do Reino Unido. Uma coisa interessante é que se a gente considerar o manual, o ano do jogo é 1905, mas em 1905 não tinha aviões do porte que aparece no stage dele… acho que um pouquinho depois já tinha, mas isso é só uma divagação louca minha. Tlaloc é mexicano, mas para ser mais preciso ele deve ser maia devido ao seu stage que lembra bem essa civilização.


Dalma é também da Coreia e traz um cajado estilo mestre Kame, mas é mais sério e possui um certo carisma como os velhinhos de jogos de luta possuem. Ele é baixinho e fica muito estranho lutar com ele vs um lutador bem alto como a Natasha. As variações de altura são gritantes se você pegar o mais baixo e lutar contra o mais alto e isso apenas em casos específicos pode atrapalhar um pouco o gameplay.

Musasi Taro é do Japão, é um ninja. Seu stage é um dos mais belos e além dos golpes secos e fortes, possui também golpes “esotéricos” como o de duplicação do corpo. A Natasha é a terceira mulher dos selecionáveis do jogo mas ela em nada remete ao estilo “mulher em jogos de luta”. Ela é alta, grande, base dos golpes na força e no estilo pesado. Ela é basicamente uma versão feminina do Zangief. E funciona muito bem, ela apesar de rústica é bem feminina e vaidosa, cabelinho preso, maquiagem e postura de mulher. Como ela mesma diz ao vencer… “sou uma mulher… mas fico perigosa quando estou furiosa”. Ela é da Rússia. Escultor e toureiro, Jarkill faz o papel do Vega, o cara Ocidental que representa a Espanha. Mas ao ver seu local de luta, temos muitas referências à Grécia também.


Em quase todos os personagens eu fiz uma analogia com Street Fighter mais para ajudar no entendimento do texto do que realmente reforçar que eles são clones ou algo assim. Sim, eles possuem semelhanças em vários aspectos mas basta você efetivamente por o controle nas mãos e jogar que vai perceber que eles são bem ricos e interessantes no gameplay. Esse é o tipo de influência boa. Aquela que faz bom uso e acrescenta algo a mais.

Comentários

  1. Eu na época fugi desse jogo achando que era mero clone dos tradicionais Fatal Fury e Street Fighter. Lendo com atenção o seu review pude notar certo capricho aplicado nessa série e devia ser uma boa opção de jogos de luta orientais, uma vez que tanto o 3DO quanto o DOS tiveram poucas adaptações, me lembro apenas de Super Street Fighter e quiçá Samurai Shodown. Isso me lembrou de revisar na Cucamonga um arcade muito caprichado no fim dos tempos de ouro dos fliperamas também rotulado como "clone", o Martial Masters da IGS, ele continha gráficos bem próximos do SFIII.

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    1. Eu tenho um certo cuidado hoje em dia porque um jogo ser parecido ou bem parecido com um medalhão não significa que de cara ele será ruim. Clones podem sem bons e muitos jogos podem ser parecidos sem serem efetivamente clones, existe às vezes um exagero das pessoas que, ao perceber elementos marcantes de um clássico em outro jogo já o rotula de clone e não joga. É preciso evitar isso. Eu fazia isso e hoje dou uma chance para confirmar ou não a crítica. Gostei bastante de Typhoon mesmo levando surras antológicas é divertido e você sente que se treinar mais e entender a dinâmica do jogo, é possível vencer. Não conheço Martial Masters, boa dica, jogue sim, ele parece muito bonito pelas imagens. Agora precisamos saber se vale à pena.
      Valeu, Doc. Abração.

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  2. Ulisses, eu entrei aqui e fiquei de queixo caído! Não sei se você sabe (acho que sabe), mas eu fui um INFELIZ proprietário do 3DO... e eu NUNCA OUVI FALAR DESSE JOGO!
    Mas o engraçado que vi o jogo e não achei um DROGA com muitos jogos de 3DO, pelo contrário, curti muito ele. Acredito que se tivesse conhecido esse jogo na época iria se tornar um dos meus prediletos. Não tinha quase nada assim para 3DO e muito meno 2D. Tudo que eles queriam fazer era algo DIGITAL por causa da tecnologia de CD e então a maioria das vezes era tudo com atores reais ao melhor estilo Mortal Kombat. Tirando Samurai e Street Fighter de 3DO.... não tinha conhecimento de nada esse estilo.
    Pior que adoro jogos de lutas orientais assim... tanto que no SUPER NINTENDO eu jogava qualquer tranqueira nesse estilo.
    Shows de bola conhecer esse jogo Ulisses e de quebra você quebrou um paradigma de jogos bons do 3DO que não conhecia. Valeu mesmo! Grande Abraço!

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    1. Com certeza, Ivo, sei que você teve um 3DO. Eu gostaria muito de ter na época. No Brasil fica difícil saber sobre jogos de 3DO nos anos 90, talvez alguma notícia em revista de games mas as informações mesmo girava em torno de sega e nintendo. O console foi bem mesmo que uma coisa de transição, o pessoal ao que parece não sabia direito como fazer um jogo decente aproveitando o poder do console sem cair nas armadilhas de fazer um "jogo/filme". A questão da digitalização também foi algo que o pessoal forçou um pouco a barra, principalmente pelo sucesso de MK.

      Obrigado, Ivo. Que bom que você gostou. Espero que você possa jogar ele em breve, vale à pena e pelo seu texto eu acho que vai gostar. Grande abraço.

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