sábado, 14 de abril de 2018

Evolution - ColecoVision


Evolution - ColecoVision


Esse jogo tem uma ideia que foi desenvolvida com um formato que lembra ao de um livro infanto-juvenil, tipo aqueles da série vaga-lume. Ao jogar a gente sente o clima de aventura que Evolution propõe. Mas é uma aventura diferente dos jogos modernos de Master System ou Nintendo porque ele é um jogo de 1983, e ao mesmo tempo ele não foca em somar pontos como o objetivo principal. É um jogo que é parte um jogo de fases e parte um jogo de pontuação. Existe um equilíbrio muito bem feito entre as duas propostas. Geralmente quando algo tenta ser uma coisa e outra ao mesmo tempo, ele falha miseravelmente em ambas. Evolution passou no teste. É divertido, possui fases, soma pontos e convence. Mas isso não significa que ele seja excelente.





Ele digamos, inova sem emplacar algo incrível. É complicado explicar, mas é que Evolution é ao mesmo tempo perspicaz por trazer uma ideia que casa certinho com games (evolução) mas se mantém em uma zona segura quando usa dessas fases evolutivas um pretexto para costurar 6 jogos simples distintos. Cada um representando uma forma, um nível evolutivo.

Começamos no formato ameba. A sensação é de estarmos olhando por um microscópio e observando os "pequenos seres" por entre as lentes do instrumento. A tela apresenta nós, a ameba, e outras formas de vida da qual devemos fugir para não morrer. O espaço está repleto de fitas de DNA que devemos comer para evoluir para a próxima fase. Existe um sistema de colisão que só entende o contato quando tocamos a "cabeça" do DNA, isso pode gerar erros, é preciso ficar atento. Não chega a ser um problema de colisão, mas é um detalhe. O botão de ação faz que usemos a invencibilidade. Isso custa uma barra de energia que fica na parte superior do vídeo. Quanto menos usar, melhor, pois ao final a barra ou o que sobou dela soma pontos.


Agora estamos em outra fase, e toda vez que eu falo "fase", o amigo leitor pode entender como "jogo". Evolution é basicamente um pack de 6x1 jogos costurados por um tema comum. Evolução. Aqui tudo muda. Somos um sapo que está em repouso no leito de um rio, lá no fundo. E precisa desviar de piranhas para poder comer insetos e evoluir para a próxima fase... a de roedor. Na forma de sapo o botão de ação faz ele pular. Tanto aqui como em outras fases é impossível não associar a outros jogos de sucesso. Principalmente no Atari. Aqui a lembrança é de Frogs & Flies.

Chegamos a uma nova fase de evolução. Somos um rato que passa por entre cavernas cavando túneis e fugindo de cobras. Nossa missão é pegar queijos que aparecem aleatoriamente durante a caminhada, e para nossa defesa, usamos o botão de ação para cagar nas cobras. Eu fiquei em dúvida mas o manual fala em "dung piles", que fui verificar no dicionário que significa fezes, então o ratinho literalmente caga nas cobras! As fezes do rato eliminam a cobra que vem atrás da passagem que ele abre. O interessante é que cada fase possui seu gameplay específico e aqui a jogada é fazer muitas ranhuras na tela para deixar as cobras perdidas e poder avançar. E em último caso. Cague nelas.


A velocidade delas é superior, mas elas são meio estúpidas, ainda bem. embora no nível "3", o jogo fique mais rápido e dê uma IA melhor para todos os personagens. Podemos escolher 3 níveis de dificuldade ao iniciar a jornada pela evolução. Certo, e agora?

Agora na pele de um castor nossa missão é pegar gravetos de um lado do rio e trazer para o outro lado para construirmos uma represa. Crocodilos vão tentar impedir. Eu considero esta a fase mais fácil de todas. Ao jogar a gente percebe que cada fase "copia" uma mecânica de algum jogo ou tenta inventar uma, mas o resultado final é mediano. Não há muito o que dizer sobre esta fase. Simples, fácil e genérica. É o ponto baixo do game.


O próximo nível é o de Gorila. Nada de bananas. Por mais estranho que seja o manual fala em laranjas. Devemos proteger laranjas de outros micos que tentam nos roubar. Nosso "tiro" são cocos que acertamos nesses micos. Ao pegar 5 deles (os micos), passamos para a ponto máximo da "carreira" biológica e chegamos na forma humana.


Durante todo o processo de evolução observe que das 6 fases apenas a gorila e humana são efetivamente agressivas. Usamos o botão de ação para atacar, mesmo que em legítima defesa mas... ao evoluir nos defendemos atirando cocos ou lasers. Enquanto em fases iniciais a fuga ou alocação de recursos é o foco. No ColecoVision isso não aparece. Mas lá no Apple II, a plataforma de origem, a introdução desta fase, a humana, mostra seres humanos chegando em um tipo de carro futurista movido a foguetes. Essa é a ideia original da fase final, quer dizer, não somos apenas humanos mas estamos em um futuro distante. Voltando ao ColecoVision podemos perceber isso ao olhar para o horizonte onde temos a silhueta de uma cidade estranha, alienígena talvez, e nossa missão é destruir mutantes genéticos que correm em nossa direção. Existe um forte pessimismo aplicado no jogo. Ainda sobre o Apple II. Eu gostaria de ressaltar que a versão original perde em relação a cores e fundos de tela mas é bem superior nas mecânicas de jogo, inclusive possui certas regras que foram perdidas nesta versão do ColecoVision. Eu entendo port´s perderem algo no visual, mas do ponto de vista estrutural acho lamentável. Tentaram fazer um jogo mais fácil? Não sei.

Mesmo depois de tantas evoluções, nosso planeta explode no final. O destino da raça humana é o fim. Ou tentando uma interpretação mais otimista, viver em outro planeta porque segundo o jogo não importa o que você faça, o final da evolução é sempre destruição. Ao destruir um número de mutantes nós vencemos e ao mesmo tempo assistimos de um plano distante, com a Lua à esquerda da tela, o trágico fim do planeta Terra. Uma explosão. É tudo o que temos.


Depois disso voltamos a fase de ameba e tudo se repete com a contínua acumulação de pontos típica dos jogos da época. Eu não quero ser injusto com o jogo. Eu desconsidero a princípio qualquer "moral" fama ou má fama que o jogo possui. Só o gameplay vai dizer o que ele realmente é. E dentro deste contexto eu vejo Evolution como um bom jogo que reúne 6 joguinhos de gameplay simples, mas bem costurados a uma ideia genial e que combina muito com videogame. A evolução.

Por outro lado eu reforço a questão do "simples" aqui. Qualquer jogo bom de Atari supera Evolution mesmo não apresentando fases ou gráficos legais que o ColecoVision apresenta. Eu acho que a proposta de Evolution foi mais contar uma história, e volto a citar a ideia da coleção Vaga-Lume, do que realmente tentar prender o jogador em rotinas mais intensas de gameplay puro. Por exemplo. Frostbite é muito simples, mas eu passaria mais tempo com ele do que Evolution.

Peque por exemplo Frogs & Flies que é parecido a fase do sapo. eu prefiro ficar uns 90 min.(o que é bastante tempo para uma sessão de um jogo antigo) nele do que em Evolution. O jogo do ColecoVision dificilmente prenderia a atenção de um dono de Atari que eventualmente estivesse com este jogo em casa.

Evolution é sensacional pela ideia da evolução, é bonito e possui uma costura bem feita com uma proposta também interessante ao juntar vários jogos em um. Mas o resultado final, pelo menos foi o que eu senti jogando, é que não tem algo realmente preciso para prender o jogador e fazê-lo jogar e rejogar várias vezes. Uma característica que outros jogos do sistema possui mesmo sendo bem mais "simples ou feios" que este.

8 comentários:

  1. Prezado Ulisses.

    Eu tenho acompanhado seu Blog há algum tempo e me interessei bastante sobre algumas matérias que fez sobre revistas com matérias sobre videogames, como a Veja e a Globo Ciência.
    Eu separei esse material para divulgar em uma página de videogames, mas percebi que as matérias saíram do ar.

    Gostaria de saber se existe a possibilidade de que essas matérias sejam re-upadas no seu blog.

    Se possível, entre em contato por e-mail para que possamos trocar uma ideia:
    ratinhonegrao@hotmail.com

    Agradeço a atenção.

    André Luiz

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia, André. Eu fico feliz por ter a sua visita e saber que acompanha o blog. Os posts de textos de revistas e livros em geral demandam muito tempo, meu foco são os jogos e por isso priorizei eles. Para manter a coesão, já que não pretendo publicar mais textos de revistas, eu retirei o que estava no ar, mantendo assim o foco nos jogos e ganhando tempo "extra" para jogá-los.
      Grande abraço, André. Obrigado pela visita.

      Excluir
    2. Poxa... :(
      É realmente uma pena, pois acredito que era justamente essas matérias que davam um grande diferencial ao seu Blog, afinal matéria sobre jogos nós encontramos em todo lugar, mas críticas a matérias de raras de revistas de videogame são muito incomuns, ainda mais com toda a profundidade que trazia no seu texto. Certamente era muito trabalhoso, mas creio que é justamente por isso que poucos estão dispostos a faze-lo.

      Infelizmente eu tinha escrito uma matéria sobre "A Ameaça Dos Videogames Violentos Superinteressante Junho de 1999" que usava o seu link como fonte, inclusive citando passagens suas. Sem a sua matéria no ar eu vou ter que descartar a postagem, pois não existe nenhuma outra matéria na rede sobre essa revista.

      Seria possível você retornar essa única matéria ao ar e deixa-la ativa no Blog?

      Pelo sim pelo não, agradeço a sua atenção em responder o comentário anterior e na disponibilidade em estar sempre trazendo conteúdo de qualidade.

      Abraço.

      André Luiz

      Excluir
    3. Obrigado pelo elogio, André. Eu vou manter o blog só com games por enquanto. Sem links extras. Agradeço muito seu interesse, valeu mesmo.
      Grande abraço, André.

      Excluir
  2. Mais um texto excelente!

    Nunca imaginei que o jogo escondesse tantos detalhes.

    Os antigos programadores eram ninjas para fazer tanto com tão pouca tecnologia.

    abs!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E neste caso específico tem uma história bem legal sobre o jogo. Ele foi obra de dois garotos apenas. E ficaram muito bem financeiramente devido ao enorme sucesso de Evolution.
      Abração, Scant.

      Excluir
  3. E aí cara, tudo beleza? Esses jogos mais elaborados parecem uma tentativa de revenderem a mesma coisa. Uma espécie de múltiplos jogos pra tentar puxar estilos diferentes de jogadores. Ando meio sumido mas tentarei trazer uns jogos legais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu fico no aguardo. É sempre bom conhecer um jogo novo ou rever um jogo conhecido, principalmente pelo seu senso de humor na escrita, Doc. Neste caso específico não foi uma técnica ou tentativa de vendas porque é um caso bem único mesmo. Os garotos que escreveram o jogo eram amigos de escola que resolveram fazer um game e "por sorte" tentaram vender. Foi um sucesso totalmente inesperado.
      Abração, Doc.

      Excluir