sábado, 28 de abril de 2018

Final Fight - Arcade


Final Fight - Arcade


A política que imperava nos arcades de ação dos anos 80 era a mesma que dirigia filmes e séries da época. Tolerância zero. Até porque bandidos geralmente não apreciam o diálogo e a negociação, exceto os do alto escalão das esferas de poder. Porque isso é um meio de se obter mais... poder. Mas contrariando a regra que imperava em Metro City, o resultado das últimas eleições trouxe ao cargo um prefeito diferente. Mike Haggar. Um prefeito durão que declarou guerra ao crime generalizado daquela metrópole, que estava perdida em caos e violência "em algum lugar dos anos 90". A resposta foi imediata. Os criminosos raptaram Jessica, filha de Haggar. O que eles não sabiam era que ela tinha um pai, um namorado e um amigo, todos peritos em artes marciais. E todos eles, dispostos a ir "pro pau" para resgatá-la. Existiam dois caminhos. Um deles era pagar o resgate e se "filiar" a organização assim como era com o antigo prefeito. O outro caminho era desconsiderar as ameaças e partir pra cima deles destruindo tudo. Se Final Fight virou uma placa de arcade é porque eles escolheram a segunda opção.




A base do jogo é a Nova Iorque dos anos 80. Os subways, as pichações, a violência de gangues e até o mapa da cidade apresenta algo que remete a metrópole, como termos "west side" e um parque que fica próximo a uma baía, que no jogo é representada pela Estátua da Liberdade, ou um clone dela. Mas as referências estão todas ali. Isso sem falar nos becos fazendo um marcante contraste com a mega cidade ao fundo com seus prédios gigantescos. Até as torres gêmeas estão presentes no game.

Outra coisa que permeia todo o game é a relação do tempo. Fica claro que Haggar e sua "turma" começam a empreitada um pouco depois do meio dia, passa a tarde toda lutando e conquistando territórios, rasga a noite em mini torneios nos submundos da metrópole até chegar a alvorada, com o raiar do sol. O desfecho deve ficar só na tarde do dia seguinte. Sabemos disso porque além dos elementos óbvios de luz dos cenários nós temos o relógio do metrô na fase do subway indicando 2 p.m., e muito depois na sequência do jogo, uma linda transição de fundo de tela, quase artística/poética marcando a linha que separa a noite do dia. Eu achei fantástico isso. E o melhor é que essas coisas somente as pessoas que estão "por fora" do jogo percebem. Como que você, ali, na adrenalina, jogando, vai perceber essas nuances de fundo de tela? Difícil.



o dia chegando em Metro City...


Final Fight é definitivamente um jogo feito para jogar de dois. Sozinho é bem difícil em algumas situações. Por exemplo. Existem contra golpes dos inimigos que muitas vezes acumulam uma sequência de socos e voadoras e não há nada o que fazer a respeito. Só perder energia. Por isso o jogador precavido tenta evitar ao máximo cair em armadilhas desse tipo. Por outro lado a dificuldade geral do game é mediana, basta decorar padrões de movimentos que passamos facilmente por chefes, claro, sempre tem "aquela parte" ou "aquele chefe" que dá mais trabalho, mas no geral é tranquilo. Bom... tranquilo falando de uma perspectiva "emulística", via MAME, porque na "vida real", entenda-se "decorar padrões" com gastar muito dinheiro com fichas.

E falando das fichas eu não vou mentir para o leitor. A experiência real do arcade é muito melhor que a emulação e isso devido a dois fatores. Som e controle. Sempre que lembro de Final Fight eu lembro de "escola" e "dinheiro do lanche". Isso porque quase todo dia, ao sair da escola, por volta das 11:45 a.m., eu passava antes em uma locadora com arcades para jogar Final Fight e/ou ver outros jogarem. Parte ou a totalidade do dinheiro do lanche ia para comprar fichas e por isso, muitas das minhas jogatinas de Final Fight foi a base de "recursos desviados do lanche". Tudo bem, a comida da cantina (colégio estadual) tinha um macarrão com almondegas enlatadas muito bom. O ruim mesmo eram aqueles pratinhos de plastico seco, embora bem acompanhados de copos com Quick morango gelado. Depois eu chegava em casa e almoçava bem para compensar.



Mas eu devo explicar os dois itens que abri no parágrafo anterior. Som e controle. O som do jogo era algo pesado, grave, reverberante, quase uma terapia sonora. Isso se deve, talvez, porque a máquina é uma grande caixa de madeira e isso faz o som ganhar tonalidades que nenhum emulador ou sistema de som vai conseguir emular. O barulho do " vu vu vu vu vu" das sequências de socos do Guy no ar, esperando pelo oponente tocar nele é algo único.

Sobre os controles não é novidade pra ninguém que jogar no arcade é algo bem diferente de jogar em um controle de PS3 com emulador (meu caso). Mas em geral, pelo menos dos jogos que joguei na vida real em comparação com as versões MAME, eu não sinto tanta falta assim do original, exceto em Final Fight. Não sei explicar. Neste jogo eu sinto falta de um bom controle arcade, nem que fosse uma réplica via usb. Mas enfim. Faz falta mas não chega a descaracterizar o jogo.

O sistema de comando é bem simples. Ação, pular. São 2 botões. Sendo que efetivamente usamos 2 botões somada a variação de cada personagem. Eu não consigo jogar com o Haggar, geralmente vou de Guy. O Cody tem algo que gosto muito que é o soco reto. Mas isso depende de cada um. Eu já vi pessoas jogarem com Haggar e simplesmente destruir tudo! Sensacional. Uma coisa ótima é que os itens não desaparecem quando descobertos. O frango te espera, a moeda te espera, a lata de coca-cola te espera, facas e espadas ficam ali no chão até você pegá-las e isso é ótimo.

No aspecto visual o jogo é riquíssimo. Os cenários são básicos, porém bem feitos e o mais importante, mudam radicalmente mantendo o tema central (cidade megalópole fudida dos anos 80). Um ponto que Final Fight peca na minha opinião. A variedade de personagens adversários. Se por um lado eles são extremamente cativantes, como alguns exemplos, a maravilhosa Poison (é, eu sei), o figurante Jake ou o irritante Slash que sabe se defender muito bem, por outro lado poderia ter mais gente, estamos falando de arcade, dava para fazer. Inclusive em momentos em que a tela fica cheia, a repetição de sprites fica evidente e isso tira um pouco o clima de "realismo" do jogo. Mas é uma crítica tangente, nada de muito especial. Aliás, críticas a um jogo como este que foi posto à prova em 1989, só faz sentido anos depois mesmo, na época só um louco reclamaria de algo neste clássico.




Final Fight é um jogo incrível que infelizmente sofreu bastante na versão de Super Nintendo. Tanto pela falta do Guy quanto pelas modificações, vulgo censura, que recebeu para evitar de antemão algum tipo de retalhação sabe-se se lá de quem. As políticas de "adequação" da Nintendo para o mercado Ocidental já cometeu crimes imensos à obra original e criatividade livre de seus desenvolvedores e filiados. Talvez este jogo seja um dos mais famosos e modificados jogos da era arcades e consoles de cartuchos.

Eu joguei a ROM de arcade japonesa para evitar perder algo original da arte do jogo. Um exemplo é a imagem da Jessica só de soutien que foi cortada para o público Ocidental, e esse corte descaracteriza todo o diálogo de provocações que aparece abaixo das imagens que ocorre na introdução. No Super Nintendo o busto de obras de arte foram encobertos, frases de banheiro apagadas, uma pinta central na testa do chefão final que remete ao hinduísmo, apagada também, entre outras modificações que o leitor encontra facilmente em vídeos no Youtube.

Eu entendo do ponto de vista comercial, mas será mesmo que isso tudo, caso não existisse, iria derrubar a Nintendo em um mar de fúria e processos de pais horrorizados com frames de 0,5 segundos mostrando sangue ao esfaquear um adversário? Acho difícil. O caso do jogo Mortal Kombat, por outro lado é bem diferente de Final Fight. Ali é compreensível uma cautela do ponto de vista comercial. Mas em Final Fight eu só entendo como histeria institucionalizada. Só isso explica tantos cortes e remendos.





O crime em Metro City é algo que estava impregnado desde os bairros abandonados e nojentos da cidade. Passando pelos meios de transporte, pontos turísticos e chegando a origem, lá no centro da cidade com um alto padrão de renda. Embora o estopim tenha sido a Jessica. Eu duvido muito que a Mad Gear durasse muito tempo com um prefeito do nível de Haggar. 

8 comentários:

  1. Se Double Dragon evoluiu e tornou internacionalmente mais chamativo o estilo do Nekketsu, Final Fight refez e modernizou mais o estilo pancadaria, chupinhado até o mercado saturar. Esse lance da mudança dos turnos só me caiu a ficha lendo esta resenha e fica mais próximo daqueles filmes antigos como Warriors que você tinha o tempo como símbolo da urgência. Agora o jogo é extremamente roubado, nunca dominei o macete de dois socos pra frente e um pra trás que é referenciado num especial do Cody em SF03. Um dia vou me preparar pra pelo menos fechar com 5 fichas. Você falou da versão do SNES e ela é um lixo, as sequências ainda copiam demais o modus operandi dos inimigos do primeiro jogo. A Nintendo era muito covardona com a censura, depois dos selos de advertência cagou a regra. Engraçado que com tudo isso não impediu dela lançar um certo Time Twist...HAHAHA Por que tu não tenta desbravar as versões do Mega CD e Sharp X68k? São muito superiores e ninguém fala nelas. A de GBA é outra porcaria, pois é espelhada demais na versão do SNES.

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    1. Macetes em FF não é comigo também. O que eu faço é decorar e prever movimentos, e assim me posicionar bem na tela. A versão do Super recai naquela questão do jogo bom... bom se não fosse o nome que tem. Por exemplo. Se o port fosse outro jogo, nada a ver com FF, não faríamos comparações, e dentro deste cenário ele seria bom ou mediano. Mas a sua crítica é válida, afinal de contas ele é sim um FF e por isso não tem desculpas. Rapaz, a versão do Mega CD eu estou faz tempo salivando para jogar, por pouco não fiz ela, é que eu queria exorcizar o primeirão antes, só para ter uma referência de comparação. A de GBA vou desconsiderar porque eu dei um tempo com portáteis, vou focar mais nos consoles mesmo. Valeu pelo comentário, Doc.

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  2. Fala parceiro! Sempre vi seus comentários nos blogs do Cadu, Ivo e Sabat, e agora estou aqui visitando e comentando no seu. pela primeira vez.
    Cara, jogaço que realmente remete à infância, colégio e butecos pé sujo. Nunca reparei nesse lance da hora! Cara, que louco isso! Genial! Mas nós lá na adrenalina pra não perder mais uma vida não tínhamos como reparar.
    Uma coisa que me irritava muito nesse jogo era esse lance de ser cercado, tomar um soco e enquanto o personagem reagia, tomava outro soco, e assim ia até cair!!! Isso era muita sacanagem!!!
    Algumas máquinas de fliperama realmente tinham um som muito bom. A que eu jogava Final Fight devia ser tão boa, já que não me recordo de nada demais. Já a de Cadillacs and Dinosaurs era sensacional! Aquele comecinho da música da primeira fase sempre chamava minha atenção.
    Simplesmente não consigo entender aquela versão de snes. Os cortes e censura da Nintendo até vai, mas não ter o multiplayer???? Foi preguiça né???? Fizeram num fim de semana né? Porque capacidade o console tinha de sobra pra isso. E como vc disse, até facilitava o jogo. Eu e um amigo tínhamos o costume de deixar os personagens um de costa pro outro, assim ninguém era atacado(muito) pelas costas. Fazíamos isso em vários beat'em ups.
    Todo jogo tem esse lance de inimigos repetidos né? Só muda a cor, o nome, fica mais forte, mais rápido. Não conheço um que não tivesse esse defeito. Até o jogo 99 Vidas que saiu na Psn Plus esse mês passa por isso.
    As poucas vezes que joguei no fliperama foram com Cody ou Guy. Depois que joguei o Final Fight 2 no snes, só jogava com Haggar pra dar pilão, me amarrava!!!
    Depois saiu o Final Fight 2, que achei longo e meio sem graça. E depois o Final Fight 3 que achei legal e meio inspirado em Streets of Rage (vide os golpes com corrida), mas faltou algo.
    A tempos atrás me deu vontade doida de jogar uns beat'em ups e instalei o Retroarch no meu Wii. Tomei umas surras com aquela dificuldade injusta e papa fichas, e parei de jogar rapidinho....eheheh...não tive paciência.
    Ótimo post parceito!!!! Manda velharia pra nós!!!
    Grande abraço!!!

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    1. Essas coisas, como o tempo, que decoram o pano de fundo do jogo é bem legal mesmo, os caras tentaram dar um "que" de cinema ou filmes de ação. A característica papa-fichas é algo que todo arcade deve ter, isso por definição é característica de toda máquina feita para "vender tentativas". Agora. O lance de um bom jogo de um jogo ruim é transformar essa intenção de dar lucro em algo também prazeroso e/ou viciante para quem compra a ficha. FF é tenso mas te vicia, se insinua com todo charme que um bom jogo tem. Por isso é uma dificuldade justificada. Mas não deixa de ser irritante as vezes, concordo.
      A questão do som é algo físico que e de fato depende do aparelho e tipo de madeira utilizada eu imagino. Eu, pessoalmente sinto/acredito que Cadillacs and Dinossaurs seja o jogo mais icônico dos arcades pós era de ouro (Pac Man, Space Invaders, Galaga etc) junto com Mortal Kombat e Street Fighter II. Boa lembrança. O Super Nintendo poderia cortar e negar tudo, exceto a alma de FF que é a opção de jogar de 2. Foi um erro histórico. Gosto muito do Retroarch principalmente pela forma como ele centraliza vários emuladores (cores) trabalhando na estrutura deles e não apenas agrupando arquivos .exe e agindo como um simples launcher, como é o caso de alguns concorrentes. O Retroarch é mais "profundo". Se você tem um WII, emulador bom é o que não falta. O console é excelente. Abração, Mario. Obrigado pelos elogios e Volte sempre.

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  3. joguei muito final fight para snes.

    Curioso como nessa época as estórias tratavam lutadores de arts marciais como seres mágicos que conseguiam resolver qualquer problema com socos e pontapés.

    o engraçado que quando era criança também acreditava nessas estórias.

    jogar sozinho é difícil mesmo.

    excelente post!

    abs!

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    1. Bom, eu acreditava que era possível levitar com muita meditação por causa do Dhalsim... science mode = OFF. Lembra do Bruce Lee enfrentando gangues italianas com as mãos nuas apenas usando palitinhos de madeira afiados ( O Voo do Dragão) ou o Vann Damme servindo o café da manhã com vendas nos olhos e ainda defendendo um ataque? ( O Grande Dragão Branco). Existia sim uma magia em torno deles. Nos filmes então nem se fale. Acho que o videogame acabou usando isso também. Valeu, Scant. Abração.

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  4. Fala Ulisses, tamo aqui de novo cara! E feliz pelo que o Mario comentou aqui tb =) Legal ver essa interação com a galera!
    Sobre Final Fight! Eu posso dizer que sou um fã de longa data dele e desde a época do Arcade. Perto da minha ex-casa (onde minha mãe mora até hoje) tinha um fliperama do Final Fight e Capitão Commando sempre lá! Eu era muito pequeno ainda, mas vivia vendo as pessoas jogando eles e sempre ficava imaginando as fases onde ninguém consegui chegar. Geralmente os jogadores ia até o ringue lá com o Sondom e morriam por lá ou no máximo chegavam no policial e então ficava sempre a lenda de alguém chegou no final com 1 ficha em Final Fight.
    Me lembro uma vez (uma da minha memórias mais antigas) que fui no shopping e passando por lá vi 2 garotos chegando perto do final do jogo, mas como tava os meus pais passei voando pelo fliper.

    Anos mais tarde joguei no Super Nintendo o Final Fight, mas me lembro de ter ficado frustado porque não tinha 2 jogadores e acha isso horrível. Mas mesmo assim cheguei no final e terminei o jogo, mas dava perceber que falta algo nessa versão para do Arcade.

    Já Final Fight 2 eu joguei MUITO! Pessoal não curtia ou não curte ele, mas eu adorava na época e jogava de 2 jogadores com um amigo sempre. Ele era bem mais fácil!

    Já o Final Fight 3 joguei pouco, já não tinha mais Super Nintendo na época e joguei na casa de um amigo, mas tb foi rapidinho para fechar e pronto. Eu acho o 3 o pior de todos, apesar de todas as coisas novas, acho ele sem carisma, não sei dizer ao certo.

    Mas parabéns pelo texto Ulisses, sempre bom ver eles! Vamos mantendo sempre os comentários ae =)
    Grande Abraço meu velho.

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    1. Você lembrou uma coisa que faz tempo eu não lembrava. Eu falo da questão de até aonde a gente ia em determinado jogo nos arcades. Muitos garotos ficavam jogando conversa fora dentro dos arcades (pois já estavam sem dinheiro), só esperando alguém por uma ficha para a gente ficar assistindo e dando palpites para que ele pudesse avançar no jogo. E quando alguém já reconhecidamente fera entrava na casa, aí era festa e audiência garantida entre cabeças se espremendo para ver a tela daquela caixa imensa de madeira (imensa porque éramos pequenos). Ver uma fase inédita era algo muito prazeroso, mesmo que pelas mãos de outra pessoa. Obrigado, Ivo. Grande abraço.

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