Streets Of Rage: Um Grande Jogo Começa Pelos Detalhes

A forma como Streets Of Rage brinca transitando pelo real e o absurdo traduz muito bem a essência do videogame. Como levar a sério a história de um grupo de jovens que decidem acabar com uma grande organização criminosa usando os punhos, tacos de baseball e canos de ferro? Mas é diversão e entretenimento, e por isso faz todo sentido... é videogame.



Do começo ao fim o jogo é uma aventura com todos os elementos que esta palavra demanda. Temos oponentes excêntricos, chefes mais excêntricos ainda, fases muito bem construídas com um "tema" visual e sonoro marcante e claro, heróis, é preciso ter os heróis.

A figura do herói é tipicamente aquela pessoa, ou ser, que sozinha resolve os problemas, que nós, falhamos em resolver. E no game nossa falha foi deixar que um grupo mal intencionado de malucos e criminosos dominassem nossa cidade, o governo e a polícia.

Um verdadeiro caos em uma cidade sem governo, sem ter a quem pedir ajuda. É aí que surge um grupo de 5 policiais que decidem lutar contra o crime e derrubar essa organização sozinhos. Axel, Blaze, Adam, o policial que dá o apoio atirando com armas, provavelmente de uso restrito das forças armadas, e o mais importante de todos na minha opinião, o excelente motorista do carro policial que leva ajuda onde quer que Adam, Blaze e Axel estejam. Mas como é possível que 5 pessoas possam mudar os rumos de uma metrópole dominada pelo caos? Em Streets Of Rage isso é possível.

As músicas do jogo, além de lembrar vários estilos indo do tecno ao jazz, ainda fornecem elementos que se caracterizam dentro da fases que dão suporte. A primeira música é super agitada, convidando o jogador a dar o primeiro passo em busca de justiça. A segunda, da segunda fase, carrega uma sonoridade bem underground com barulho de sirenes ao fundo "riscando o som", e a fase é bem isso mesmo, é quando entramos no lodo do submundo, com todos os criminosos a nossa espera e todas as paredes pichadas indicando a presença de gente de baixo nível.








E assim segue fase à fase, cada uma um verdadeiro retrato sonoro do que estamos vendo na tela. É claro que o som é algo bem subjetivo e pessoal, mas ao mesmo tempo o ato de criar uma música não é algo feito de qualquer jeito, jogando notas musicais em cima do silêncio e tirando uma composição perfeita no final do processo, não é tão simples como alimentar galinhas jogando aleatoriamente milho no terreiro onde todas elas se alimentam entre grãos e pedregulhos.

E neste sentido é possível sim falar de boa música e música bem feita para determinada função. Observe que em jogos da nave, onde temos as melhores músicas, elas, em geral, não contextualizam tão bem as fases como Streets Of Rage consegue fazer. E isso não é um demérito, como eu disse, os jogos de navinha possuem as músicas mais incríveis porém essa contextualização, quer dizer, essa "colagem" entre som e imagem não é tão expressiva.

E o motivo talvez seja o problema de contextualizar o Cosmos ou áreas alienígenas, obviamente é bem mais fácil fazer isso se temos em questão uma fase de "cidade" ou uma fase "da água". A música dos jogos de navinha possuem a função de deixar o jogador "na pilha" ou estasiado dependendo do caso, mas é uma relação direta entre jogador e música, a fase o desenho e o design não interfere muito neste aspecto, prova disso é que podemos em jogos de nave em geral, colocar a música da fase 3 na fase 1 ou colocar a música da fase 2 na fase 7 e tanto faz, vai ficar bom do mesmo jeito, todas elas vão funcionar lindamente.

Em Streets Of Rage ou jogos como Donkey Kong Country, algumas canções são lindas e são necessariamente "coladas" a imagem e tema visual que temos na tela.

Apertar um botão e de repente a tela inteira "correr" para esquerda a apresentar um carro disparando tiros... isso é ótimo, é excêntrico como quase tudo no game mas... é ótimo! Outra coisa que cabe bem aqui é como a ambientação da cidade noturna foi bem feita... luzes, neons, o brilho de prédios distantes, uma população urbana efervescente que aparece logo na intro do game com "carrinhos" aos montes indicando um trânsito de uma grande cidade, tudo isso misturado com detalhes das ruas que remetem a algo sujo e underground traz um sentimento de que realmente estamos em uma grande metrópole.

É bem básico: Todos eram felizes, um cara mau chegou e dominou todo mundo, agora a esperança fica nas mãos de um pequeno grupo de heróis para resolver a questão. Só isso. Eu até poderia sugerir que algumas cenas de diálogo entre as fases cairiam bem mas... acho que não, do jeito cru e direto que foi feito foi a melhor escolha naquele momento para este jogo.

O jogo inteiro traça uma linha imaginária que percorre as fases de maneira linear, mas de repente subimos e voltamos a tela para o encontro final. Embora seja uma receita simples, o game poderia ser linear do início ao fim, mas não, a partir dos momentos finais do jogo o sentido da ação muda, ninguém precisa te dizer que a fase final é a final, tudo ao seu redor está "gritando" isso. É notável na fase onde temos uma ponte com vários pontos abertos na base que estão "convidando" o jogador a arremessar seus oponentes nesses buracos... essa comunicação não verbal do game para a época e pensando apenas nos consoles, já que o universo arcade é outra coisa, foi algo bem marcante.

Antes do Mega Drive jogos como Double Dragon 2 e Tartarugas Ninja 2 era o que eu tinha de mais intenso em jogatina nos consoles para jogar de dois. Rapidinho Streets Of Rage pegou o lugar dos anteriores como um dos melhores co-ops que experimentei. Frutas ou carnes, facas ou canos de ferro? Fica a sua escolha a melhor forma de combater o crime com as mãos nuas, que na verdade não eram tão nuas assim já que ao apertar um botão "alguém aparecia do nada" e mandava uma chuva de balas em direção aos inimigos, bem no estilo Hollywood de ser, exageradamente como todo videogame deve ser.


Comentários

  1. Conseguiram criar uma franquia doméstica com uma pegada arcade e deixá-la tão memorável no Mega quanto os ports de Golden Axe e Altered Beast. O jogo respira o conceito do cinema de Hong Kong, com esses absurdos de enfrentar tanto vagabundos padrões quanto pistoleiros na base do muque. A OST é um destaque, não tanto pela criatividade superestimada do Koshiro, mas por ele ter sido competente em traduzir os hits da época: Black Box, Enigma, Public Enemy etc.. Acho que pela escolha musical, a vantagem saiu melhor do que se ele tentasse adaptar músicas usando instrumentos tipo guitarras.

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    1. Realmente Doc. Inclusive quando surge a dúvida de qual é melhor, Final Fight ou Streets Of Rage, eu pessoalmente gosto mais do primeiro nos arcades e o segundo no console da Sega. O jogo dá aquela sensação de estar vivendo um filme mesmo, mas com um desafio puro, sem as afetações cinematográficas do Kojima por exemplo.
      Pois é, acho que foi em uma entrevista que o Koshiro disse:

      "O pessoal adora o estilo da minha música, mas a minha música é a música deles na verdade...

      Se referindo aos fãs do Ocidente.

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  2. Realmente, Streets of Rage é um beat 'em up incrível, um dos mais legais que joguei e se for contar só os originais de console, provavelmente é o melhor disparado.

    Por algum motivo, todo beat 'em up tem um "minion" gordo (que algumas vezes ainda solta fogo pela boca) que geralmente é um dos soldadinhos base mais fortes. O interessante é que em SoR, ao tentar dar um agarrão nesses capangas rechonchudos, o protagonista não aguenta o peso e caí, levando dano. Essa é uma das coisas do SoR que acho absurdamente realista, principalmente contando a época em que foi feito.

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    1. O gordo no 2 já lembra o Mr. Heart do Hokuto no Ken, acho que esse era o nome dele também no jogo, já o fogo foi coisa dos desenvolvedores.

      https://www.youtube.com/watch?v=vM6JeL9Zy9E

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    2. Acho que esses tipos que se repetem seguem o mesmo princípio dos plataformas, onde temos várias vezes fases do... gelo, Egito, floresta e por aí vai. São moldes que facilitam a criação. Quando o jogo surpreende a gente como você descreveu, é aí que ele acaba nos conquistando, seja ele bom ou ruim.
      Eu fico imaginando um Streets Of Rage no Neo Geo, seria o máximo. Um dos melhores beat and ups, rodando no melhor console para gráficos 2D.

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    3. Neo Geo de fato tinha ótimos jogos, mas em questão de Beat 'em Up, acho que os maiores sucessos vieram da Capcom, como jogos como Final Fight, Captain Commando, Cadillacs and Dinosaurs e Armored Warriors.

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    4. É exatamente isso que eu disse. Todos os jogos que você citou Duran, são jogos de arcade, feitos para rodar nas placas CPS1 e CPS2 da Capcom. Mas qual console poderia rodar os arcades em seu máximo dentro de casa?
      Neo Geo.
      O que eu quero dizer é que entre todos os consoles de mesa disponíveis da geração, o melhor de todos para rodar jogos da Capcom ou de qualquer outra empresa (já que a Capcom não fabrica consoles) é o Neo Geo. Por isso apenas no campo da imaginação, um Streets Of Rage da SEGA feito para um Neo Geo seria muito melhor que o do Mega Drive. Mas isso é apenas um exercício de imaginação, sem compromisso com a realidade, sem levar em conta direitos autorais ou coisas do tipo.

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    5. Eita, eu jurava que o Neo Geo era arcade também. '-'

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    6. Catei aqui, realmente tem as versões de arcade e console, a do console tem conteúdo exclusivo?

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    7. Na lista abaixo você pode ver que todos os jogos de console possuem uma versão de arcade. Não sei se existe algum exclusivo. Isso só ocorreu no Neo Geo CD.
      Lembrando que AES = Advanced Entertainment System = console
      MVS = Multi Video System = arcade
      A grosso modo daria para afirmar que o console era apenas um arcade versão "slim" já que os games eram essencialmente os mesmos tecnicamente, e inclusive existem adaptadores para rodar os jogos que ficam dentro do arcade diretamente no console.

      http://www.neo-geo.com/snk/masterlist.htm

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  3. Ulisses, que texto! Senti uma declaração de amor à um dos melhores beat'em ups de consoles de todos os tempos. Digo um dos melhores pq melhor que este só o 2, que INFELIZMENTE não traz o policial bom de mira que explode a coisa toda sem dó e ainda não atinge nem de raspão os demais heróis. Mas acabou virando um jogo ainda mais polido com uma trilha que conseguiu ser ainda melhor, gráficos que ficaram ainda melhores e... bem, faltou o Adam também, eu detesto os outros dois personagens... rs.
    Eu também consigo sentir a música do jogo combinando com a temática, tipos de inimigos e o design de cada fase. Já escutei o contrário, mas foi de pessoas que detestam música eletrônica, então fica um pouco difícil aceitar tudo isso diferente de "opinião de hater"
    E nunca imaginei que fossem dois caras no carro, pra mim sempre foi o mesmo insano dirigindo, parando e atirando. Mas agora olhando melhor, tem uma silhueta de outra pessoa no vidro do carro. Como eu nunca reparei nisso? Que coisa!
    Acho que por hj é só! Outro ótimo post!

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    1. É um game que além de ser excelente, trouxe uma riqueza de detalhes que eu nunca tinha visto em consoles, mas este tipo de impressão só acontece na época, no calor dos acontecimentos. É muito legal você ali concentrado socando os criminosos e de repente algum timbre ou efeito sonoro "realça" no seu ouvido e você diz:
      Putz... isso tem tudo a ver com o momento...
      Essa "conversa" que o cara que fez as músicas conseguiu transmitir é algo impagável mas é muito singelo e nem todos se dão conta em uma primeira jogada, é preciso rejogar e ir absorvendo aos poucos as nuances de Streets Of Rage.
      Obrigado Cadu!

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