Os Mestres Do Jogo

O post a seguir é uma breve resenha do livro somada a minha argumentação pessoal. Portanto nem tudo que o post cita se refere ao livro, sem perder, obviamente, a intenção de resenha e divulgação da obra.

Eu gostaria de fazer um rápido paralelo entre este livro e o mais famoso sobre games que chegou na Brasil, que se chama “A Guerra Dos Consoles”.

Em A Guerra Dos Consoles, o autor é um fã da SEGA assumido e descreve de forma romanceada com base em fatos e entrevistas a forma como a SEGA derrubou um gigante, a Nintendo, e mostrou que sim, era possível concorrer com a besta e até em certo momento vencê-la. É um livro atual e excelente! Aqui, em Os Mestres Do Jogo, o autor é um repórter que não tem relação nenhuma com games. Um cara que escreve para vários jornais americanos e para a revista Playboy, Rolling Stones etc. Seu livro tem uma estrutura totalmente reportagem investigativa. Em outras palavras, o livro de David Sheff, é um verdadeiro “raio X” da Nintendo. Mostrando como ela surgiu e como ela dominou o mercado americano de videogames. 

Outra coisa importante. O livro de Sheff foi escrito entre 1991/1993. Isso significa que Sheff descreve a Nintendo dentro do furacão dos acontecimentos, antes mesmo do Playstation surgir, e isso é muito importante porque o autor não olha para a empresa com a influência da história que veio depois, ele narra a Nintendo na época em que a Nintendo e a Sega eram as empresas mais fortes no segmento games. O livro de Sheff é quase um reflexo direto da época, o livro de Blake J. Harris, A Guerra dos Consoles, é um trabalho de reconstrução histórica, escrito muito tempo depois.

O livro é um excelente trabalho de investigação e feito por um jornalista isento ao máximo, eu diria que Sheff escreveu o livro com a alma de um típico pai americano preocupado com a “invasão” que a Nintendo fez ao trazer o Nintendo 8 Bit para os USA em 1985.  Eu digo isso porque sua introdução faz um panorama geral da empresa nos USA e como ela dominou 1/3 dos lares americanos, deixando empresas como Disney, Apple e Microsoft entre outras com a pulga atrás da orelha, devido ao crescimento meteórico da empresa no período NES e Super NES. 

Olha só a dedicatória de Sheff no livro: 

“Este livro é dedicado a Karen Barbour, que insiste em dizer que Donatello, Rafael, Leonardo e Michelatigelo são pintores, não tartarugas ninjas, e a meu filho, Nicolas, que me apresentou ao Nintendo mas que agora prefere ler.” 

“Mas que agora prefere ler...” 
Já deu para perceber o tom do autor né? Inclusive o título original se chama “Game Over”, um título nada amigável para a empresa. Embora o livro não seja difícil ou técnico, ele é bem abrangente e muito informativo. Tanto é que serve de fonte e referência para todo mundo que escreve sobre a história dos videogames, inclusive foi um dos livros que Blake J. Harris leu para escrever “A Guerra Dos Consoles”. O livro de David Sheff se tornou referência no assunto. 

O livro inicia mostrando a saga da família Yamauchi que fundou a Nintendo em 1889 para vender baralhos japoneses. Também descreve como a empresa se tornou uma “empresa de verdade” a partir de 1951 com a abertura da Nintendo na bolsa de valores, seu contrato com a Disney em 1959 e a fabricação das primeiras cartas plastificadas do Japão em 1953.  Eu diria que a Nintendo que conhecemos nasceu mesmo na década de 50 pós guerra. Foi só a partir deste período que a Nintendo começou a criar uma cultura de fazer brinquedos que logo abraçou os brinquedos eletrônicos e posteriormente, claro, o videogame.

Claro que o livro conta toda a história de Sigeru Miyamoto que chegou na empresa em 1977. Uma coisa interessante por exemplo que o livro descreve é como o gorila do jogo Donkey Kong foi criado para ser um bicho gentil. Até mesmo no folder do arcade é possível ver que o “jump man” que iria se tornar o Mario, aparece com uma cara raivosa, mas o gorila na verdade pegou a namorada dele apenas porque ele, Jumpman, o tratava mal. Em nenhum momento a garota correria risco, ela “apenas” foi pega e levada na parte superior da tela. O gorila era um tipo engraçado e descontraído. A quantidade de informação sobre as histórias de jogos importantes e momentos difíceis e gloriosos da empresa é impressionante. O livro é delicioso de ponta a ponta. 

Hiroshi Yamauchi foi o grande nome da empresa em todo esse tempo de construção e glória da fase moderna da empresa. O livro explica direitinho como os termos do contrato que a Nintendo assinava com outras empresas era rígido, porém muito rentável. Se por um lado a Nintendo lucrava horrores, as empresas licenciadas lucravam muito também. Em 1985, 17 empresas estavam com a Nintendo, em 1988, 3 anos depois, já eram 50!  É aquela história. A SEGA sempre repudiou a Nintendo em relação a contratos rígidos. Mas quando teve uma oportunidade de fazer igual, com o ainda promissor sucesso do Genesis, ela, a SEGA, não perdeu tempo, e tentou fazer exatamente aquilo que repudiava quando fechou os primeiros contratos com a Eletronic Arts. Nem boa nem má, apenas empresas fazendo negócios. Isso é embasado neste livro e também em um trecho do outro livro, “A Guerra Dos Consoles”.  De certa forma, nos tempos do Mega Drive a coisa mudou, e já fazia sentido para outras empresas fazerem negócios com a Sega, claro por méritos da SEGA. Em outras palavras, no mundo dos negócios não existe essa coisa de santo ou demônio, o que determina muitas coisas são as oportunidades de fazer dinheiro. Existe o jogo sujo e baixo? Sim existe, mas no caso do “contrato malvadão da Nintendo”, a coisa não é tão simples assim.

Embora o livro tenha a qualidade de trabalho investigativo, isso é fato, um texto belíssimo. Eu devo concordar também que no início o autor tinha uma linha mais agressiva para divulgação da obra. Observando as capas das edições que se seguiram, a gente percebe claramente um trabalho de “aparar as pontas” e deixar a capa mais vendável. Observe a capa da primeira edição que fala em “chocar a indústria pegar seus dólares e escravizar suas crianças” bem na capa com a imagem de um garotinho fazendo cara de cú. Já depois a coisa ficou mais branda e diz apenas “como a Nintendo conquistou o mundo”, e depois… fala em um amadurecimento da indústria e coloca o Mario na capa.

Eu li a versão em português, mas na versão americana que dei uma olhada, encontrei um posfácio que o autor escreve um ano depois do livro ter saído pela primeira vez. Este texto é interessante porque o livro saiu em um período cheio de transformações sobre o tema. Era 1992/1993. Claro que um texto de 1994 seria cheio de poréns que o autor não poderia saber em 92/93. 

Não vou colocar o texto na íntegra do posfácio porque os robôs do Google poderiam interpretar isso como cópia ou plágio, por isso vou resumir alguns pontos que David Sheff aborda pouco depois de sair a primeira edição de 93. A data é de Janeiro de 1994. Logo no subtítulo ele fala em “o jogo real está apenas começando”. Sheff fala de como Mortal Kombat é repulsivo e agressivo, e de como a Nintendo que antes monopolizava os lançamentos, agora, nada poderá fazer com este título que vai sair para os consoles da Sega também. 

Ele começa a falar sobre a guerra dos consoles e de como o Genesis dominou o mercado e encostou na Nintendo, chegando a superá-la. E faz uma correlação de Mortal Kombat para simbolizar esse crescimento da Sega. Sheff também cita bastante o 3DO como uma máquina com forte potencial, já que p hardware era caro mas o preço das licenças para desenvolvimento, não. A tecnologia do CD foi muito citada como a revolução. E até o Play Station, com a grafia separada mesmo, foi citado muito rapidamente junto ao Atari Jaguar. O legal deste texto é que fica claro que a promessa era o 3DO e os outros eram apenas gente estranha com consoles em fase de lançamento. Como Sheff poderia imaginar que aquele “Play Station” brevemente citado, iria se tornar na besta incontrolável dos anos seguintes até os dias de hoje.

David Sheff também faz um longo comentário sobre a reação da Nintendo ao se unir a Silicon Graphics, respopnsável pelos efeitos de Jurassic Park, para fazer um novo console de 64bits! 

Eu diria que David Sheff andou o tempo doto em cima de uma linha de transição, e escreveu seu livro em uma das melhores época possíveis para se fazer um registro jornalístico. Sem querer, ele acertou em cheio. Se Sheff tivesse optado pelo sistema romanceado como faz muito bem Blake J. Harris de “A Guerra Dos Consoles”, teria ficado rapidamente defasado e chato. Ambos os livros saíram exatamente na época certa para saírem! 

Absolutamente tudo que você imaginar sobre a Nintendo até o período Super Nintendo, é relatado neste livro. Os grandes jogos, os embates com empresas nos tribunais, a genialidade de seus artistas e programadores, a forma como o hardware do NES, relativamente frágil, foi “bombado” com chips especiais que iam no cartucho e não no console, a forma como a empresa chegou nos USA como se fosse uma microempresa maluca tentando vender videogames para lojistas com fobia de videogames devido ao fracasso e queda da Atari, e se transformou em uma gigante, a forma autoritária que a empresa mandava em todos, absolutamente todas as fases de produção, vendas e distribuição dos jogos, a fundação da revista Nintendo Power, os atritos da Nintendo of America e a sede japonesa… enfim tudo! 

Os Mestres Do Jogo é um livro de releituras. É impossível absorver a quantidade informações em uma única leitura. Simplesmente fundamental. 

Fonte:
SHEFF, David. Os Mestres Do Jogo. Best Seller/Círculo do Livro, 1993


Comentários

  1. ótimo post!
    um amigo meu tem ainda a rara versão em papel.
    bom q da pra achar em pdf.

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    1. Se eu não me engano não se acha esse livro em livraria nenhuma, só em sites de usados.
      Falou Scant! Abração!

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  2. Fala Ulisses, eu tenho esse livro cara! Depois anos e anos atrás dele eu consegui ele! Comprei faz uns 2 anos no Estante Virtual e não foi barato não! Foi quase uns 80 reais nele, mas peguei pq queria muito ler! E é exatamente como você disse, não dá para absorver tudo em apenas uma leitura, tem MUITA INFORMAÇÃO, muito mesmo!

    Mas o GUERRA DOS CONSOLES ainda é meu predileto, eu me delicio lendo esse livro, incrível mesmo!

    Excelente texto, se tiver mais recomendações de livros, não deixe de postar! Grande Abraço!

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    1. Grande Ivo!
      Agora tenho seu depoinmento... o livro é difícil mesmo. Pena que nem todo livro é comprável em livrarias. Lembro que alguns clientes meus chegavam na livraria que eu trabalhava e não entendiam bem o que era o "fora de catálogo". Parce ser o caso desse clássico.
      Eu prefiro o Guerra por ser mais, digamos, entretenimento com informação, o Mestres se parece mais com um documentário, mas é muito bom também.
      Assim que for lendo vou postando, abração!

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  3. O interessante de certas matérias ou perspectivas de uma época é o fato de que o escritor se apoia em convicções próprias ou influências externas do momento, já um texto apurando todo um trecho histórico pode ocorrer uma falácia. É divertido um livro assim pelo fato de ser menos paga pau da agora promissora indústria futurista do entretenimento. Por outro lado cai naquele velho sensacionalismo barato do autor ingressar num submundo disposto a alienar e arrancar dinheiro de um grupo amoral.

    O livro também deve se forçar bastante nas evidências americanas e não no espectro todo. Por isso sempre esse fantasma da Nintendo ser a bam bam bam. Nos EUA pode até ser, mas no resto do mundo ela teve que ralar mais pra se manter no mercado, principalmente no Japão e isso também restrita ao mercado dos video games domésticos.

    Pode reparar que todo esse revival atual de aparelhos gira em torno do NES e o MD da concorrente; os aparelhos mais badalados nos EUA.

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    1. Isso é verdade. As convicções do autor já de cara estavam traçadas, ele basicamente não é um fã de games. No caso de textos que possuem um trecho histórico, existe a vantagem de olhar com certo distanciamento e analisar melhor impactos, mas... a chance de distorções e falácias também existe, Verdade Doc.
      Rapaz, no decorrer do texto David Sheff me pareceu muito isento, quase um robô sem programação prévia kkkkkkkkk o cara é bom mesmo, fez um tipo documentário! Eu pensei que a veia sensacionalista fosse entrar em ação em algum capítulo mas não vi isso no livro.

      Perfeito Doc! Eu não pensei nisso e esqueci de falar! O livro é basicamente um retrato da experiência Americana, isto é, muito longe de todo o espectro da Nintendo. Embora a pesquisa do autor tenha sido incrível, foi um olhar americano sobre o tema, sem dúvidas. Bem lembrado Doc!

      Valeu pela visita Doc, abração!

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  4. Rapaz, tentei publicar este comentário aqui N vezes, se aparecer várias vezes aí pra vc, me desculpe por isso! kkk

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    Eu lá vou querer ler algo que retrata o Satanás tão de perto? Vou ler a verdadeira Bíblia dos Games, o Console Wars, que retrata a deusa SEGA tentando se livrar do mal que assola a humanidade (EUA), mas a falta de fé das pessoas fez com que a cruzada pelo bem da raça humana fosse derrotada pela tecnologia (Playstation) e... ah, chega de viajar, vai... huhauhauahuahuhauhua
    Parece legal, eu já tinha ouvido falar do livro e me esqueci completamente dele. Só não sabia que ele tinha sido escrito na época e que ele tinha tantas coisas com esse teor jornalístico todo (inclusive a pérola do 3DO ter potencial e etc).
    Vou separar um tempo pra ler, mas antes ainda quero ler o "Nos Bastidores da Nintendo", ele tá aqui lacrado tem quase um ano e eu continuo embaçando pra ler! hahahaha
    Valeu Ulisses, ótima dica e ótimo texto!

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    1. Tranquilo Cadu, qualquer duplicação eu apago de boas. :)
      Sei lá, nunca coloquei filtro de nenhum tipo nesses comments. Tá bugado saporra kkkkkk!

      Mas que introdução é essa Cadu? Daria um filme kkkkkkkk. O bem contra o mal, já imaginei o Mario com a face carregada de ódio e o Sonic com um brilho de heroísmo e esperança no olhar! E de repente, repetindo Matrix, o Playstation nos usa como... pilhas!
      O livro é bem isso, um documentário em papel, muito bom! Rapaz o Nos Bastidores da Nintendo eu to lendo e sai em breve por aqui, tipo, eu sempre dou alguns spoilers para enriquecer o texto, mas acho que esse tipo de leitura é diferente de romance, quer dizer, dificilmente algo que eu diga vai tirar o valor e o prazer de ler o livro na íntegra. Tenho certeza.
      Obrigado Cadu, que bom que gostou, valeu!

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