Videogame Na Cabeça: Revista Veja 9/12/1992


Mania de Última Geração

"O poder de fogo dos videogames, o brinquedo mais sofisticado que a industria de lazer já lançou, apaixona as crianças, preocupa os pais e ressuscita uma antiga discussão. Seus críticos alertam contra a alienação promovida pelo uso obsessivo, enquanto seus defensores aplaudem o estímulo a funções cerebrais. Na artilharia cruzada, cresce uma das maiores indústrias de diversões do mundo."

Essa foi a chamada de índice da revista Veja de 9 de Dezembro de 1992. O videogame era a matéria de capa. Em 1983 os videogames explodiram no Brasil. O Atari da Polivox e seus clones começaram a construir uma cultura do videogame no país. Logo em seguida em 1989 aproximadamente, a geração dos clones de Nintendo e o Master System reafirmavam o gosto do brasileiro por videogames. E agora chegamos ao ano de 1992.

Um ano bomba, cheio de eventos sociais e políticos que abalaram o Brasil. Um desses eventos foi a força que Mega Drive e Super Nintendo alcançaram nas mentes e nos corações dos jogadores. Mas a coisa foi tão intensa que era praticamente impossível ignorar os videogames. Fato que acabou gerando uma capa da revista Veja, que se rendeu e acabou tratando do assunto.

9 de Dezembro de 1992. Nesta data a revista trazia uma reportagem de capa sobre os videogames, com foco no Super Nintendo e Mega Drive, e de como eles afetam as crianças, se é que afetam.

Foi um artigo escrito para os pais e não para os jovens que liam sobre isso nas revistas de época como Ação Games ou Super Game Power. O público-alvo era o público padrão de Veja. E foi por isso que eu me surpreendi com a matéria.


Eu na época não vi, não li e não tinha interesse nas revistas semanais como a Veja. Mesmo tratando de algo que poderia me chamar atenção eu não lembro de ter se quer visto ela nas bancas. Por isso li a revista através do acervo on-line que a mesma recentemente disponibilizou ao público.

Assim como eu lembro do inesquecível Globo Repórter sobre videogames que foi ao ar um ano antes, em 1991, na TV Globo. Eu senti uma curiosidade para ver se a Veja teria feito algo parecido, quem sabe. Uma coisa é certa. Era impossível ignorar os videogames e a força deles no Brasil do início dos anos 90.

Eu me surpreendi com a matéria porque ela foi escrita com o objetivo de tentar entender aquela coisa nova para os pais, e não foi em nenhum momento tendenciosa ou sensacionalista. Pelo contrário, mostrou que o videogame é de fato um entretenimento como outro qualquer. Com suas características singulares, mas mesmo assim, algo para divertir e não assustar.


O trecho a seguir mostra um pouco do que eu estou falando. Nele, aparecem dois profissionais criticando os games, e logo em seguida o posicionamento da revista (não é assinada a matéria) que contrapõe brilhantemente os ataques vazios de um sociólogo e de um professor. O texto da revista na íntegra traz outros profissionais "pró videogame", que defendem a mídia com a leveza e naturalidade que o videogame merece ser tratado. Sem histerias ou guerras ideológicas.


Início trecho da revista Veja:

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Como era de esperar, os jogos violentos e agressivos dos videogames, em que heróis cospem balas e submetem seus inimigos a torturas explícitas, já viraram alvo das patrulhas politicamente corretas, em especial nos Estados Unidos, onde 40% das casas exibem os jogos eletrônicos. “A influência dos games sobre as crianças é alarmante”, afirma o professor Eugene Provenzo Jr., da Universidade de Educação de Miami, que pesquisou o conteúdo de 47 games da Nintendo cotados como os favoritos entre as crianças. “Os jogos são sexistas, porque as mulheres nunca são iniciadoras de ação, e violentíssimos. Eles tem a lógica da justiça pelas próprias mãos”, reclama Provenzo.

No Japão, o exportador mundial dos jogos eletrônicos, a última diatribe contra a gamemania foi lançada pelo sociólogo Volker Grassmuck, da Universidade de Tóquio. Grassmuck desconfia que o comportamento anti-social, agressivo até, dos chamados “otakus”, uma geração de jovens brilhantes, introspectivos e viciados em computadores, seja consequência do isolamento provocado pelo uso obsessivo da parafernália eletrônica. O sociólogo chegou a atribuir à barreira de comunicação erguida pela hipnose eletrônica uma série macabra de quatro ou cinco assassinatos ocorridos no Japão: pais assassinados a pauladas ou outros métodos horrendos pelos filhos adolescentes.

… Apavorados? Vamos dar outro pause. A onda de resistência que se ergue contra os videogames é a mesma observada contra tudo o que é novo. Francamente. Atribuir aos videogames um comportamento anti-social que pode levar até ao assassinato é uma tolice que não merece sequer ser discutida. Os pobres garotos infratores que estão nos reformatórios brasileiros seriam, por essa teoria infeliz, grandes praticantes de jogos eletrônicos. Os pais preocupados com seus pequenos gamemaníacos devem se lembrar que, há algumas décadas, os adultos escandalizavam-se com o efeito, julgado pernicioso, dos gibis. Com a televisão foi a mesma coisa. Quem não foi severamente admoestado sobre suas consequências deletérias? Agora, chegou a vez dos videogames.

Para dar um tom intelectualizado às críticas, mascarando o que é apenas um reflexo de estranhamento, brande-se contra os joguinhos os espectros da violência e do sexismo. Tempos atrás, acadêmicos frívolos escreviam teses sobre a infiltração da sombria ideologia capitalista através dos gibis. Felizmente, nenhuma criança entendia o que queriam dizer com isso e não perdeu tempo com essas bobagens. Agora, apareceram os intelectuais que sustentam a cruzada contra os videogames a partir de raciocínios igualmente tolos.

Conforme dizem, os jogos são sexistas porque, neles, as mulheres aparecem em situação de fragilidade – a princesa resgatada pelo herói masculino é o exemplo constante. Em toda a mitologia, procurou-se valorizar o sacrifício masculino pela mulher, uma experiência que os homens aparentemente precisam viver, ainda que só na ficção, para firmar sua identidade. O instinto guerreiro, que em culturas variadas exige do adolescente que mate um leão ou raspe o cabelo à moda punk, está entranhado na psique desde a mais tenra idade. Nas histórias infantis, é sempre um príncipe valente que salva a heroína da bruxa invejosa e malvada. As crianças sempre adoraram, meninas inclusive. Talvez seja o caso de mudar a humanidade, que fabricou esses esteriótipos de comportamento. Os videogames nada têm com isso.
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Fim do trecho.



Que texto maravilhoso esse da Veja. É possível identificar a ironia do autor na resposta aos ataques dos parágrafos iniciais. É claro que existem bons sociólogos que não são histéricos e alienados por uma ideologia qualquer, mas já em 1992 nós podemos observar exemplos dos maus profissionais.

Eu fico imaginando como que um profissional que avaliou 47 jogos Nintendo, imagine se fosse da Sega ou de arcades, chegou a tantas conclusões sobre violência e sexismo. Claro. Pessoas doentes enxergam coisas que não existem, não sabem diferenciar a realidade da ficção. A ficção dos videogames.

Mas isso é uma constante, quando a gente menos espera, aparece um teórico falando sobre coisas que não entende direito, e pior, geralmente apontado falhas, problemas, criando monstros fictícios (existe outro tipo?). Em outras palavras, transformam ficção em realidade, e com base nisso, produzem fantasmas baseados em falsas premissas. É o famoso e popular “tempestade em copo d´água”.

A matéria também toca no assunto da "guerra dos consoles" protagonizada pela Sega e Nintendo. E entra no aspecto econômico da diversão eletrônica. No rodapé da matéria temos de um lado o Super Nintendo com uma breve descrição junto a Super Mario e Street Fighter e do outro lado da página, Veja coloca um Mega CD e destaca a mídia em disco como uma vantagem sobre a concorrência.

Revista Veja, 9/12/1992


Se o amigo leitor ficou interessado, pode acessar o acervo de Veja e ir em 9 de Dezembro de 1992. Foi a penúltima revista do ano. A navegação é bem intuitiva e fácil.


Fonte:
Acervo Veja - http://veja.abril.com.br

Comentários

  1. Excelente matéria da Veja, quando comecei a ler seu post eu estava esperando um ataque sensacionalista aos videogames, mas na verdade o texto mostrou uma visão mais ampla. Muito interessante como isso gerava um certo susto antigamente. Lembro que minha vó pegava no meu pé para eu jogar pouco e também dizia que estragava a televisão e eu ia ficar louco... rsrsrs. Bela postagem!

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    1. O que surpreende é que a matéria foi escrita para pais mesmo, daí a coisa tinha tudo para descambar em achismos e medos, nada disso aconteceu. :)
      Tem de tudo na mídia, o pessoal as vezes precisa criar um monstro para vender jornal ou segurar audiência, tem até professor universitário de instituição pública que entra nesta onda de criticar videogame para justificar o salário, que ironicamente é pago por gente que joga videogame.
      O pessoal falava isso de estragar a TV kkkkkkk, eu mesmo usei por um bom tempo uma TV em cores de 5´pol para não usar a TV da sala. Motivo. O videogame podia estragar a TV. ^_^

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  2. excelente post!

    engraçado que no passado pensavam que videogames geravam gente maluca, como se a maioria dos malucos da história tivessem jogado video games.

    abç!

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    1. Putz é verdade ^_^
      É igual a relação videogame e jovens violentos. Que é zero. Mas de vez em quando aparecem alguém tentando relacionar isso com àquilo.
      Falou Scant!

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  3. Muito interesse este ponto de vista, valeu por trazer até nós Ulisses.

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  4. Mano do céu, eu lembro dessa edição! Lembro da capa! Lembro de alguns momentos que vi essa capa! Mas não lembro nada da matéria, talvez por eu não ser o público alvo da época! Vou aproveitar pra ver aqui no seu post! Ótima ideia falar sobre o assunto!
    Cara, a passagem do autor do texto é genial mesmo! Eu não seria capaz de dizer que em 1992 já tinha gente quebrando as pernas dos "politicamente corretos" (e/ou SJW, apesar do termo ser recente em relação ao artigo). Vc disse bem quando falou do pessoal que não sabe diferenciar ficção e realidade. Sempre achei engraçado o videogame ser culpado por assassinatos e filmes e novelas não. Legal que o autor falou o mesmo do gibi, isso também ocorreu com TV e outras coisas em outras épocas.
    Felizmente estamos entrando na época em que isso meio que tá mudando e todo preconceito dos "não jogadores" tem sido cada vez mais deixado de lado.
    Achei o máximo essa passagem aqui:
    "Nas histórias infantis, é sempre um príncipe valente que salva a heroína da bruxa invejosa e malvada. As crianças sempre adoraram, meninas inclusive. Talvez seja o caso de mudar a humanidade, que fabricou esses esteriótipos de comportamento. Os videogames nada têm com isso."
    Não tenho mais nada a acrescentar, só levantar e aplaudir. Mas antes fica o elogio pro post, ficou ótimo! O artigo da pessoa também, seja ela quem for também está de parabéns!
    Valeu Ulisses!

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    1. Obrigado Cadu! Eu sempre me surpreendo com textos antigos sobre games. Tudo se repete de forma quase tediosa. ^_^ Esses dias eu vi uma matéria que era algo sobre "O que as garotas pensam dos caras que jogam videogame", puta que pariu kkkkkkkk ninguém fala dos "caras" que se esparramam no sofá e assistem jogos de futebol e bebem cerveja ou dos "caras" que passam finais de semana jogando baralho ou gastando em shows e cinema, ah! mas videogames são estranhos... é claro. ^_^
      Eu concordo com você que o preconceito com games está diminuindo. Isso é mais por substituição do que convencimento. Eu explico. Os caras que achavam games perda de tempo nos anos 80 e 90, hoje em geral, continuam na mesma mas... as crianças de antes agora são pais e professores etc, e muitos deles que nasceram com Master System e Atari´s, hoje possuem uma visão diferente. Acho que a mudança está mais vindo do pessoal que cresceu do que do pessoal que está mudando de ideia. É um pensamento pessimista meu, mas acredito que isso seja o que de fato acontece.
      Cadu, da Veja eu espero qualquer lixo, qualquer coisa, por isso eu fiquei surpreso com a matéria. Gostei mesmo. Eu não achei nada a respeito do quem escreveu a matéria, infelizmente, o cara ou a mina que a fez, fez muito bem.
      O meu problema com os "justiceiros sociais" Cadu, é que eles quase sempre se apegam a fantasias, e a partir delas tentam impor uma ação na vida real. Claro que vai dar merda. Eu prefiro tentar entender o que de fato está acontecendo, olhar o fato concreto, e a partir dele tentar ajudar. Os justiceiros sociais geralmente se apegam a teorias não testadas ou a fantasias que são belas no papel mas não funcionam, e claro, existe o pior tipo, os justiceiros sustentados com dinheiro público, esses são os piores, esses são "genuinamente" desonestos.
      Grande abraço Cadu!

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  5. A mídia muitas vezes esquece de informar e prefere criar matérias exageradas pra vender algum tipo de aventura pro leitor, até que essa daí equilibrou os posicionamentos. Eu acho bem difícil um grupo de pessoas organizarem um grupo criminoso porque acharam "legal" um filme ou jogo.

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    1. É aquela coisa Doc, revista tem que vender. Um exemplo recente foi aquela capa ridícula da Veja colocando Lula vs Moro como se fosse uma luta de boxe. As outras são assim também. Outra coisa, não sei se você já teve a oportunidade de ler a revista Superinteressante das edições mais velhas... putz, se você compara as mais atuais é nítido a mudança de revista de ciência "leve" para revista sensacionalista de fatos curiosos. Uma lástima.
      Como o pessoal percebeu que os games hoje no Brasil possuem um público bem grande e que chora alto se for preciso, as revistas estão mudando o foco de atacar para "entender" o videogame. Hoje dá mais ibope e dinheiro defender do que atacar o videogame. Mas é tudo uma questão de dinheiro. Nada sólido ou real. Tudo depende da direção do vento, digo, do dinheiro.
      Valeu Doc, grande abraço!

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  6. Fala Ulisses, beleza! Cara, EU LEMBRO DESSA REVISTA, nas bancas em 1992 e olha que tinha 9 anos hahaha! Mas eu vivia nas bancas, mas ao ler essa título eu achava que a matéria era uma crítica destruidora sobre videogames e por isso virei até a cara na época.

    Muito se falava que videogames faziam malz e tudo mais naquela época e sempre ouvia isso dos adultos e achava uma bobagem sem tamanho, os anos passaram e no final estava certo mesmo com 9 anos.

    Mas por outro lado temos que ver que tudo que é nova sofre essas críticas e os pseudos intelectuais falando asneiras... foi assim com a Internet, Celulares, WhatApp e cia.

    Isso me faz lembra sobre aquele massacre no colégio do EUA que queria colocar a culpa em DOOM, pq acharam esse jogo no PC dos garotos na época. Quanta baboseira!

    Mas de qualquer forma foi muito legal ler essa matéria Ulisses e se achar mais coisas assim, não deixe de postar. Alias estou passando aqui sempre de olho nas suas dicas de leitura ^^

    Grande Abraço. Ivo

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    1. E aí Ivo? Agora são dois, você e o Cadu viram esta revista. Rapaz, eu juro que não lembro dela. Eu ia nas bancas pra ver revista de artes marciais e games mas esta Veja passou batido! Parte dos pais tem medo ou tinham porque o videogame de fato nos hipnotizava. A gente, e acredito você também Ivo, ao pegar no joystick o mundo exterior some. Nós ficamos absolutamente concentrados e devotos a telinha. Acho que esse tipo de comportamento que fazia crianças barulhentas manterem silêncio e foco em algo, e "pior" de forma voluntária, assustava alguns pais. ^_^
      Você com 9 nos sabia o que eles não podiam perceber porque não conheciam. Eu também nunca levei a sério essas críticas.
      Eu acho que o videogame ainda é visto como secundário, dentro do gênero "entretenimento" na sociedade em geral. Talvez daqui mais uns 20 ou 200 anos o videogame seja mais entendido como um entretenimento como outro qualquer! ^_^
      Que bom que você gostou Ivo, valeu mesmo!

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